Palmas, 23/09/2017

Justica

Sa√ļde

Obesa e presa na Unidade Prisional Feminina de Palmas, jovem sonha com cirurgia bari√°trica

  • A rotina di√°ria de C.M.S. √© a mesma h√° quase dois anos. A mulher de 28 anos mal v√™ a luz do sol, desde que est√° presa na Unidade Prisional Feminina de Palmas, por tr√°fico de drogas

Obesa e presa na Unidade Prisional Feminina de Palmas, jovem sonha com cirurgia bari√°trica



Cinthia Abreu

A rotina di√°ria de C.M.S. √© a mesma h√° quase dois anos. A mulher de 28 anos mal v√™ a luz do sol, desde que est√° presa na Unidade Prisional Feminina de Palmas, por tr√°fico de drogas. "Eu acordo, fa√ßo a minha higiene pessoal e s√≥ levanto da cama para os momentos de refei√ß√£o", conta a reeducanda, que n√£o participa das demais atividades da unidade prisional, como o banho de sol, por conta do excesso de peso. Ela pesa atualmente 168 quilos, sente muitas dores ao se movimentar e sonha com a realiza√ß√£o de uma cirurgia bari√°trica. "Ficar em p√© e at√© sentada por muito tempo me incomoda muito. Eu at√© consigo me movimentar em p√© se for por um momento breve, mas sinto muitas dores nas pernas, nos joelhos, em todas as articula√ß√Ķes. Por causa disso, decidi n√£o ir mais para o banho de sol", explica.

Ela conta que j√° tentou realizar a cirurgia, solicitou no sistema p√ļblico de sa√ļde por n√£o ter condi√ß√Ķes financeiras de pagar o procedimento particular, mas nunca sequer foi chamada para a realiza√ß√£o de exames, consulta m√©dica ou a triagem inicial. Por conta disso, C.M.S. acionou a Defensoria P√ļblica do Estado do Tocantins no intuito de garantir o seu direito, j√° que √© considerada como obesa pelo c√°lculo de √ćndice de Massa Corporal. Ela est√° sendo acompanhada pela defensora p√ļblica Napociani P√≥voa, coordenadora do Nadep ‚Äď N√ļcleo Especializado de Assist√™ncia em Defesa do Preso. Por meio de uma atua√ß√£o conjunta do Nadep e Nusa ‚Äď N√ļcleo Especializado de Defesa da Sa√ļde, a Defensoria P√ļblica est√° acionando o Estado e o Hospital Geral de Palmas por meio de Recomenda√ß√£o e of√≠cios para que sejam tomadas as devidas provid√™ncias para a assist√™ncia m√©dica e poss√≠vel realiza√ß√£o da cirurgia bari√°trica.

Direito

De acordo com a Defensora P√ļblica, C.M.S. tem o direito de submeter-se √† realiza√ß√£o de cirurgia bari√°trica pelo sistema p√ļblico de sa√ļde, j√° que a Constitui√ß√£o Federal consagrou como fundamento o princ√≠pio da dignidade da pessoa humana e estabeleceu que a sa√ļde √© um direito de todos e dever do Estado, garantido ainda o acesso universal e igualit√°rio aos servi√ßos para sua promo√ß√£o, prote√ß√£o e recupera√ß√£o. "Ela sente muita dificuldade de realizar atividades simples como sentar e se levantar e por estar no sistema prisional a situa√ß√£o se agrava por conta das limita√ß√Ķes do local e da priva√ß√£o de liberdade", defende Napociani.

Sa√ļde

A jovem reeducanda conta que passa por graves problemas de sa√ļde, como hipertens√£o arterial, problemas osteoarticulares, respirat√≥rios, dificuldade para dormir e dist√ļrbios hormonais. "Eu tenho de tomar anticoncepcional sem parar porque o meu fluxo √© muito forte, com muita hemorragia, e eu ficava muito fraca, sem falar que tinha muita dificuldade de fazer a higiene adequada aqui dentro da pris√£o", descreve. Al√©m disso, o calor excessivo do Tocantins acaba se agravando dentro das celas da unidade prisional, provocando ainda mais desconforto devido o excesso de peso. "Os quartos s√£o muito quentes e ficamos com muitas pessoas em um lugar pequeno e fechado, o que me provoca press√£o alta e tonturas frequentes", relata.

Dos 168 quilos atuais, a reeducanda adquiriu 68 apenas no per√≠odo de reclus√£o. "Eu cheguei aqui com 100 quilos, j√° estava acima do peso, mas acabei sofrendo muito com a ansiedade porque fiquei sabendo que meu pai tinha morrido assim que eu fui presa. Al√©m disso, veio a dist√Ęncia dos meus filhos (duas crian√ßas ‚Äď uma de dois anos e outra de 9), de todos os familiares e amigos e o isolamento, o que me provocou muita ansiedade e foi tendo reflexos na minha alimenta√ß√£o", conta a jovem que √© do Mato Grosso e n√£o tem familiares no Estado, mas est√° reclusa em Palmas por ter sido presa na cidade.

C.M.S. teme at√© mesmo uma poss√≠vel depress√£o, j√° que acaba se isolando socialmente por causa das limita√ß√Ķes f√≠sicas decorrente da obesidade. "Aqui a gente fica muito tempo ociosa e n√£o tenho condi√ß√Ķes sequer de fazer um exerc√≠cio f√≠sico. Os momentos de tristeza profunda aparecem com muita frequ√™ncia e at√© fico pensando em coisas mais graves, com medo de nunca sair dessa situa√ß√£o. Mas creio que s√≥ n√£o cai ainda na depress√£o porque √© forte a minha f√© em Deus. Ele √© quem me d√° for√ßas para continuar, de acreditar que vou conseguir sair e resgatar a minha vida", declara.

Com os olhos cheios de l√°grimas e a voz embargada, C.M.S. conta que a cirurgia bari√°trica √© para ela a realiza√ß√£o de um sonho. "Eu sempre fui gordinha, mas depois que entrei aqui engordei muito por causa da ansiedade e medica√ß√£o. Eu n√£o aguento mais viver nessa situa√ß√£o, eu sonho todos os dias em que serei aceita para a cirurgia bari√°trica e poderei resgatar a minha sa√ļde e dignidade novamente. Essa √© a minha ora√ß√£o, diariamente, e creio que um dia poderei realizar esse sonho."


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