Palmas, 26/06/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de desenvolvimento

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Pró-reitor de desenvolvimento


Os pró-reitores de desenvolvimento foram assim denominados para aquelas pessoas que ocupam posições cuja missão, ao que tudo indica, é provocar a inovação e a expansão das suas organizações de ciência e tecnologia. Notem a frase duvidosa "ao que tudo indica". Quem criou essas posições, "ao que tudo indica", não sabia do que estava falando e nem com o que estava tratando. A razão disso é que o termo "desenvolvimento" é extremamente ambíguo, passível de inúmeras definições diferentes e contraditórias, que é praticamente impossível colocá-lo em prática. Tanto é assim que em termos gerenciais ele não é admitido e na ciência e filosofia é considerado um ideário. De qualquer forma, como é uma posição que muitas organizações de ciência e tecnologia brasileira utilizam, este artigo tem como objetivo definir as funções que o pró-reitor dessa área precisa desempenhar.

As pró-reitorias de desenvolvimento recebem inúmeras denominações. Eis algumas: pró-reitoria de desenvolvimento de pessoas, pró-reitoria de planejamento e desenvolvimento institucional, pró-reitoria de desenvolvimento institucional, pró-reitoria de desenvolvimento universitário, pró-reitoria de desenvolvimento humano, pró-reitoria de pesquisa, inovação e desenvolvimento, pró-reitoria de desenvolvimento social e inúmeras outras. O que essas unidades têm em comum é exatamente o fato de não se saber com precisão de que tratam. Isso não quer dizer, contudo, que algumas não desempenhem papéis formidáveis.

Tome-se o caso de um instituto federal do Sul do país. Ali, o pró-reitor de desenvolvimento institucional é o cérebro da organização. Lida com os problemas mais complexos do instituto, de maneira que dificilmente o pró-reitor toma decisão de longo prazo e que envolva alto risco sem que essa pró-reitoria se manifeste formalmente. Veja-se o exemplo da gestão de pessoas. Institucionalmente é o pró-reitor de administração que tem a responsabilidade sobre o pessoal, mas estrategicamente é o pró-reitor de desenvolvimento institucional que tem todos os dados e informações sobre o pessoal no curto, médio e longo prazos.

A pró-reitoria sabe com precisão quantos servidores deverão se aposentar anualmente, quantos sairão para realizar aperfeiçoamentos em mestrado e doutorado, quantos deverão pedir licença para tratar de interesses diversos e assim por diante. Quando se fala em precisão, em gestão, é sempre de bom alvitre lembrar que o termo quer dizer uma previsão com meta e limites superiores e inferiores de erros padronizados. Precisão não é como o senso comum imagina. Pois bem, com base nesses dados e informações o pró-reitor de desenvolvimento institucional orienta não apenas o pró-reitor de administração, mas todos os outros e diretores de campi.

Atuações semelhantes a essas são constatadas em algumas organizações de ciência e tecnologia bem gerida. Vamos a mais um exemplo. O pró-reitor de desenvolvimento e planejamento de uma universidade federal tem os dados e informações sobre o comportamento das demandas e ofertas internas anuais de tecnologia da informação (TI) para os próximos 30 anos. O gerenciamento da TI é de competência da pró-reitoria de administração, que gerencia o plano mestre de operações, mas segue as orientações do pró-reitor de desenvolvimento. É com base nessas orientações que máquinas, equipamentos e serviços são continuamente modificados e o grau de satisfação dos usuários é altíssimo, próximo de 95%, em uma escala de 0 a 100.

Esses dois exemplos permitem compreender tanto a ambiguidade da posição de pró-reitor de desenvolvimento quanto a aplicação prática no cotidiano das organizações que a mantém nas suas estruturas. Primeiro, os pró-reitores não têm todos os mesmos desafios e funções a desempenhar. Parece que a posição foi criada para lidar com questões específicas, como confirma a maioria dessas posições, embora isso não possa também ser considerada uma afirmativa categórica. Há muitas exceções.

Segundo, a maioria dos pró-reitores de desenvolvimento que têm algum sucesso lida com o longo prazo. Infelizmente (e como era de se esperar), a maioria dos pró-reitores de desenvolvimento são mal sucedidos justamente pela ambiguidade de suas missões e funções. Mas os quando trabalham com adequação o longo prazo com dados e informações a partir de métodos e procedimentos gerenciais qualificados têm contribuído decisivamente para o adequado funcionamento de suas organizações e alcance de seus objetivos. Por exemplo, o instituto federal do nosso exemplo praticamente não teve problema com servidores nos últimos seis anos, quando a pró-reitoria começou a funcionar, diferentemente de quase todos os outros, onde disciplinas não são ofertadas por falta de professores.

Terceiro, os pró-reitores de desenvolvimento são o cérebro da organização como um todo, em poucos casos, e em aspectos específicos, em muitos casos. Isso quer dizer que aqueles pró-reitores que fazem com adequação seus trabalhos (e os reitor e pró-reitores entendem o mínimo de gestão) fornecem os subsídios necessários para a tomada de decisão de longo prazo e que envolvam riscos elevados. A técnica a serviço da gestão proporcionada pelo pró-reitor é como dissipador de instabilidade ante os ambientes cada vez mais instáveis e incertos.

O pró-reitor de desenvolvimento, como mostramos neste artigo, tem o desafio de tornar claro o seu papel no contexto organizacional quanto apresentar resultados que lhe permita justificar sua presença no organograma institucional. O que se pode afirmar, com alto grau de certeza (novamente, certeza no sentido gerencial), é que essa posição poderia facilmente ser extinta, caso os outros pró-reitores fizessem com adequação os seus trabalhos e realizassem suas missões. Isso leva à inferência natural de que onde houver uma pró-reitoria de desenvolvimento, tanto geral, como as institucionais dos institutos federais, quanto específicas, como as de inúmeras universidades, lá está algo que não está funcionando bem.


*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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