Palmas, 24/07/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Diretor Geral de Campus

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Diretor Geral de Campus


Os diretores gerais de campi são um tipo de executivo de organizações de tecnologia cujas funções são extremamente ambíguas, o que gera muita confusão e até mesmo conflitos internos. Algumas vezes esses diretores são tratados pelos reitores e pró-reitores como subordinados, apesar de, na hierarquia organizacional, quase sempre se posicionam em mesmo nível deles. O que gera esse conflito é uma dubiedade na relação entre a percepção dos executivos e o efetivo exercício gerencial, que está invertida. A percepção diz que é necessário que sejam descentralizadas as decisões nesse tipo de organização, o que é perfeitamente compreensível e aceitável, mas a prática faz o inverso: as decisões são tomada pelos reitores e pró-reitores, cabendo, quase sempre, aos diretores gerais a simples obediência. Este artigo tem como objetivo mostrar a função dos diretores gerais de campi em uma lógica descentralizada de operações.

Organizações de ciência e tecnologia multicampi são similares às organizações privadas de grande dispersão espacial. As organizações privadas muito dispersas mantêm uma unidade gestora (geralmente chamada matriz e, em outros casos, de holding). A matriz não produz, vende ou presta serviços como as suas unidades dispersas. Quando centralizada (e quase todas as são), emana as diretrizes, objetivos, metas e muitas vezes as estratégias para as suas unidades, de forma negociada ou imperativa. Esse procedimento é justificável porque a missão da unidade central é justamente controlar o alcance dos objetivos de cada unidade dispersa e do agregado organizacional.

No caso das organizações de ciência e tecnologia, devido à própria natureza de seus produtos e serviços, a relação de poder deveria ser inversa: o reitor deveria ter menos poder e, os coordenadores de cursos, por exemplo, que estão situados na base da pirâmide, o maior poder. Qual é a lógica dessa inversão? Simples: o fortalecimento dos sistemas de produção da organização. Na verdade, a inversão de poder está inversamente relacionada com a capacidade de servir.

A metáfora do time de futebol também pode nos ajudar a compreender essa lógica. Tudo o que existe na organização de futebol, do presidente do clube ao roupeiro, do diretor de marketing ao massagista, deve estar focado para uma única coisa: o time vencer as partidas que disputar. É vencendo o maior número de partidas que o time pode alcançar seus objetivos de longo prazo: vencer o campeonato ou evitar ser rebaixado.

Com essa analogia fica fácil compreender o papel do diretor de campus, que é o do técnico do time. O reitor (presidente do time) e pró-reitores (diretores do time) têm que trabalhar para que o diretor geral (técnico do time) possa ficar com o pensamento e atitudes voltadas exclusivamente para os jogos que vai disputar. Dependendo da quantidade de profissionais a serem formados, número de artigos científicos a serem publicados, número de patentes a serem registradas, número de empresas de base tecnológica a serem criadas, dentre outras metas (o que corresponde aos jogos que serão disputados pela equipe de futebol) em determinado período de tempo, reitores e pró-reitores devem se desdobrar para entregar ao diretor o que for necessário para que o mesmo diretor possa entregar aos reitores e pró-reitores a produção prevista.

Não importa se o diretor geral está ou não na mesma linha hierárquica de pró-reitores. O que importa é que se saiba com adequação quem é cliente de quem e quem é fornecedor de quem. Neste esquema desenhado, reitor e pró-reitores têm que trabalhar para os diretores de campi, sendo fornecedores deles, o que implica em dizer que têm que entregar aos diretores o que precisam, na quantidade solicitada e no tempo determinado aquilo que lhes forem demandado. Inversamente, os diretores gerais têm que entregar aos pró-reitores e reitor a produção acertada, de forma semelhante a um plano mestre de produção ou operações das empresas privadas comerciais e industriais.

O que acontece na realidade nacional da maior parte das organizações de ciência e tecnologia? O diretor de campus não sabe o que pode e o que não pode fazer. Nos documentos oficiais que criam a função descrevem uma enormidade de responsabilidades, mas não há nenhuma referência àquilo que devem produzir, entregar, e muito menos a quem. Ainda se pratica nessas organizações uma forma muito antiga de organização, baseada exclusivamente em uma visão jurídica, há muito deixada de lado por organizações de alta produtividade, que são centradas em objetivos e metas, cuja descrição da função é sucintamente descrita como "planejar, organizar, dirigir e controlar os recursos para alcançar os objetivos do campus negociados anualmente com a direção superior da instituição".

Notem que a descrição da função é apenas uma. E essa descrição diz o que o diretor geral de campus tem que fazer (executar o processo gerencial), o que tem que produzir (objetivos e metas) e a quem entregar (reitor e pró-reitores). É com base nesse esquema que o diretor geral poderá negociar com os executivos institucionais quantos profissionais de cada curso poderá formar anualmente, quantos artigos científicos serão produzidos e quantos serão publicados (inclusive em que tipo de veículo qualificado) e quantos produtos serão registrados, por exemplo.

Funcionando de forma similar aos demais tipos de organização, a função do diretor geral de campus deixará de lado a ambiguidade e terá ganhos formidáveis, como, por exemplo, a extensão de sua autonomia e de negociação. Há diretores gerais de campus em organizações de ciência e tecnologia brasileiras que negociam praticamente tudo com instituições de todo o mundo, sem necessariamente ter que prestar contas ou pedir autorização de quem quer que seja. É que a estratégia a ser utilizada para alcançar os objetivos e metas negociados com a direção superior é de livre formulação desses diretores. Quando a função de diretor geral de campus for compreendida e executada em conformidade com a lógica de gestão, novos horizontes se abrirão para nossas organizações de ciência e tecnologia.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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