Palmas, 13/12/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Diretor de Inovação

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Diretor de Inovação


O gerenciamento das inovações tem sido um desafio para as organizações de ciência e tecnologia. Entenda-se gestão, contudo, como o processo de planejar, organizar, dirigir e controlar recursos para o alcance dos objetivos organizacionais. Aplicando-se esta definição às organizações de C&T, significa planejar, organizar, dirigir e controlar recursos para que possam produzir as inovações que os seus ambientes de atuação necessitam. A inovação é quase desconhecida das nossas organizações porque seus executivos não apresentam os dois domínios básicos para que possam ser consequentes, domínios esses que correspondem aos dois grandes desafios conceituais e operacionais das inovações, vistos sob o prisma dos demandantes. Neste sentido, este artigo tem como objetivo apresentar os dois focos de atenção de todo diretor de pós-graduação de organizações de ciência e tecnologia.

Já foi dito que toda organização é um sistema de produção e que todo sistema de produção, enquanto sistema aberto, tem que suprir as necessidades do seu ambiente de atuação, com o qual devem manter um canal de comunicação constante e preciso. O gerenciamento adequado dos sistemas de produção de inovação, sob a responsabilidade dos diretores de inovação, vem exatamente da compreensão dessa dinâmica organização-ambiente. Isso implica em suprir dois tipos de necessidades específicas: as inovações relacionadas aos processos de produção e aquelas que consistem em gerar produtos novos. Assim, há inovação nos processos e inovação nos produtos.

As inovações processuais têm como finalidade a eficiência do produto através da melhoria das suas etapas sequenciais de produção. Em termos específicos, a melhoria do processo gera a) mais rapidez, b) reduz custos, c) mais segurança, d) mais simples e e) mais competitividade. A rapidez significa fazer o mesmo produto em menos tempo, o que implica em alterar o processo de produção substituindo, eliminando ou fundindo etapas. Quando se reduz o ciclo de produção, em termos gerais, o processo se torna mais simples, sendo a simplicidade o contrário de complexidade, que significa muitas etapas.

A redução de custos é consequência direta do uso de materiais e do tempo de ciclo do processo de produção. Inovar, aqui, é eliminar itens, máquinas, equipamentos, insumos e outros itens que consomem dinheiro ou substitui-los por outros menos onerosos. A razão disso é que o custo total depende dos custos unitários dos itens envolvidos na produção, inclusive os indiretos, como os custos de supervisão. 
O aumento da segurança é item de inovação porque permite a rapidez no processo de produção e a redução de interrupções, seja por acidentes de trabalho, seja por reprocessamentos e paradas. Quanto mais a proposição de uma nova sistemática ou etapa aumentar a segurança, maior o grau de inovação que conseguirá imprimir para a organização.

A simplicidade é um dos alvos prediletos dos esforços de inovação organizacional. Simplificar significa reduzir a quantidade de etapas, máquinas, equipamentos, insumos e outros tipos de recursos no processo de produção. Quanto menos itens de composição do processo, menos complexidade, vantagem que se estende para os outros requisitos inovativos e aumento da competitividade organizacional.

A competitividade é o ponto de partida e o ponto de chegada de todo esforço de inovação. Nas arenas mais competitivas, o tempo de seguimento, que é quando uma organização consegue imitar e superar a organização pioneira na inovação, é extremamente curto. Isso exige dos atores ambientais dinâmicas em horizontes de tempos cada vez mais curtos, de maneira que cada aspecto aqui detalhado (rapidez, custo, segurança e simplicidade) proporciona fugazes lideranças competitivas à organização inovadora, mas que faz a diferença em termos econômico-financeiros e mercadológicos.

O outro foco, talvez o mais visado por ser o mais conhecido, são as inovações revolucionárias, que costumo chamar de inovações nos produtos. Esta inovação pode ser sintetizada no termo "Novo Produto". Estas são as inovações mais raras, que correspondem a menos de 1% de todas as inovações realizadas anualmente em todas as organizações do planeta. Apesar de tudo isso, concentra uma quantidade relativamente grande de pessoal, dinheiro e esforços em relação às inovações processuais, o que explica, por exemplo, o elevado custo total e seu consequente para os consumidores finais.

Por incrível que possa parecer, são às inovações revolucionárias que as organizações de ciência e tecnologia brasileiras parecem mais se concentrar. Mas, como seus dirigentes desconhecem a dinâmica do mercado e as especificidades dos produtos que procuram substituir, quase sempre não conseguem alcançar seus desejos. Esse insucesso não é por falta de capacidade inovativa, mas por falta de conhecimento mercadológico e gerencial. Não é por incompetência, mas devido à ignorância. Ao invés de cientista, os diretores de inovação das organizações de ciência e tecnologia também precisam ser, também, executivos.

Está chegando o tempo em que as organizações brasileiras de ciência e tecnologia vão ser forçadas a profissionalizar também a gestão de suas inovações. Ou melhor, vão ser obrigadas a inovar, porque atualmente apenas têm a posição de direção de inovação, mas que operacionalmente são ineficientes, para não dizer inócuas. Diversas experiências bem sucedidas mostram que a inovação começa em casa, principalmente com a superação de desafios do tipo falta de recursos, pessoas, ambiente e condições de trabalho. Quem se quer inovador tem que se inovar primeiro. O resto é mero discurso.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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