Palmas, 22/11/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Diretor de Pesquisas

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Diretor de Pesquisas


Os diretores de pesquisas quase sempre têm concentrado seus esforços em busca de bolsas para seus pesquisadores, tanto professores quanto alunos. E nisso dispendem quase todo o seu tempo de trabalho. Muitas vezes quem ocupa essa posição são pesquisadores com alguma experiência em produção científica, mas com praticamente nenhuma experiência ou formação técnica em gestão. E o resultado é quase sempre o mesmo: ineficiência. E torna-se válido o velho jargão: "perde-se um excelente pesquisador e ganha-se um diretor de pesquisa extraordinariamente ineficiente". Este artigo tem como objetivo mostrar o que os diretores de pesquisas de organizações de ciência e tecnologia precisam focar e que conhecimentos devem ter para alcançar os resultados que essas diretorias quase sempre têm em mente.

O que os diretores de pesquisas desconhecem, e que impede o sucesso nas suas gestões, é a lógica de funcionamento de qualquer organização. Desconhecem também que toda organização (e a diretoria de pesquisas é uma organização) precisa produzir alguma coisa que seja do interesse do seu ambiente de atuação. Então a primeira coisa que todo diretor de pesquisas deve saber é o que o ambiente tem como necessidade e que sua organização pode suprir. É desse levantamento que vai depender todo o desdobramento do seu plano de ação.

Sabendo quais são os produtos (conhecimentos, metodologias, produtos, serviços, patentes, registros de propriedade intelectual, inovações, empresas de base tecnológica, dentre inúmeros outros) que o ambiente necessita, a etapa seguinte é fazer o levantamento interno para saber quem são os pesquisadores, grupos de pesquisadores, grupos de pesquisas e campi que podem produzir esses produtos e suprir as necessidades do ambiente. Se não houver pesquisadores, grupos de pesquisadores, enfim, se não houver quem seja capaz de produzir o que o ambiente precisa, ou o diretor de pesquisas recomenda a eliminação da diretoria à organização de ciência e tecnologia de que faça parte ou começa a capacitar e a organizar os seus pesquisadores para este intuito.

Com pesquisadores e grupos de pesquisadores identificados com os produtos/serviços de que o ambiente externo precisa, a etapa seguinte é a elaboração de um plano de produção ou plano de operações cuja finalidade é garantir o suprimento das necessidades do ambiente. Esse plano global institucional é feito a partir dos planos de cada grupo de pesquisadores (gerenciado pelo líder) e de cada campus (gerenciado pelo diretor de pesquisa do campus). Evidentemente que os planos devem apontar, pelo menos, os objetivos a serem alcançados, os produtos e serviços que serão criados, as estratégias que serão executadas, os projetos para cada produto ou serviço, os recursos necessários para garantir a produção dos serviços e produtos, os indicadores institucionais e operacionais de desempenho e as métricas necessárias para a mensuração dos resultados.

Em organizações multicampi, o que tem sido muito comum na realidade brasileira, os planos de suprimento de necessidades deve ser direcionado para cada ambiente local, de maneira que cada campus foca as necessidades de seu ambiente. Em alguns casos é necessária a conjugação de esforços multicampi para o suprimento de necessidades específicas e também de necessidades dispersas espacialmente. É papel do diretor sistêmico de pesquisa fazer o levantamento global de toda a área de atuação de sua instituição, sempre em parceria com os diretores de pesquisas ou similares de cada campus.

Esse esquema lógico permite que se compreenda que o diretor de pesquisas deve focar a entrega de produtos e serviços ao ambiente externo. Para isso, precisa saber com precisão que produtos e serviços cada pesquisador e grupo de pesquisadores de sua instituição são capazes de produzir, pelo lado da oferta; pelo lado da demanda, precisa saber com exatidão quais são as necessidades de produtos e serviços de pesquisa de cada organização que faz parte de seu ambiente de atuação. Sintetizando, diretores de pesquisas devem focar demanda e oferta de produtos e serviços oriundos de pesquisas, científica e/ou tecnológicas.

Já está na hora de diretores de pesquisas pararem de se preocupar bom bolsas de pesquisas. E bolsas com valores irrisórios, miseráveis. E ainda tem diretor que se vangloria de ter obtido algumas dezenas de bolsas cujos valores não pagam sequer o transporte de alunos de graduação. A gestão profissional da pesquisa, que é responsabilidade do diretor de pesquisas, requer negociações profissionais, maduras, responsáveis e consequentes. Nada de mendigar. Nada de se humilhar. Nenhum negociador dá importância para indivíduos que não aprenderam a negociar. E negociação significa auxiliar na resolução de problemas de alta complexidade.

Lembro certa vez participar de uma negociação de uma pesquisa cujo objetivo era elevar a capacidade competitiva do produto de certa indústria amazônica. O projeto previa a redução dos custos de produção de certo produto na ordem de 27% e elevação da receita em torno de 42%. Através de várias simulações conseguimos demonstrar a viabilidade de execução do projeto quanto o alcance dos objetivos pretendidos. Depois de executado, os resultados permitiram que o produto alcançasse 18% de marketing share mundial. E deu quase 80 milhões de dólares de retorno para a indústria. Em troca, a organização de ciência e tecnologia ganhou um prédio de seis andares equipados com equipamentos de última geração e um milhão de dólares em dinheiro.

Gerenciar pesquisas não é lidar com bolsas. Gerenciar pesquisas é ser capaz de auxiliar na resolução de problemas complexos de organizações parceiras que atuam no ambiente de inserção da organização de ciência e tecnologia. Também não é fazer pesquisas para encher revistas científicas de conhecimentos. Isso é coisa de imaturo. O diretor de pesquisas competente não é aquele que transforma dinheiro em conhecimentos, mas o que transforma conhecimentos em dinheiro.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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