Palmas, 19/11/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de inovação

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Pró-reitor de inovação


O pró-reitor de Inovação tem uma das mais desafiadoras missões a que pode se colocar uma organização de ciência e tecnologia. Essa atividade fim exige uma série de atitudes do ocupante da posição que expõe os conhecimentos e habilidades que deve ter e aplicar para que possa superar os seus desafios. Infelizmente, essas atitudes, quando aplicadas, o são de forma parcial. A razão desse fracasso quase sempre é se colocar como pró-reitor de inovação um cientista de média a alta capacidade de realização, mas sem conhecimento gerencial, ou, inversamente, um executivo com profunda necessidade de negociação, mas sem o conhecimento adequado da dinâmica da inovação. Este artigo tem como objetivo descrever as principais funções do pró-reitor de inovação das organizações de ciência e tecnologia.

O pró-reitor de inovação é o executivo que tem como missão fundamental suprir de técnicas e tecnologias o ambiente de inserção de sua organização. Sua habilidade essencial é justamente elaborar esquemas conceituais e executivos da dinâmica necessidade e suprimento ao longo da linha do tempo que vai do presente ao futuro distante. A razão da aplicação dessa habilidade é pressuposto de que tudo o que existe evolui. E isso implica em dizer que a evolução gera a obsolescência. O obsoleto, que já foi novidade um dia, transforma-se em impedimento da dinâmica evolucionária. Para que a dinâmica seja resgatada é necessário que seja substituído, o elemento obsoletizador, por algo novo, em dia com as necessidades contemporâneas.

Dessa forma, as inovações precisam ser contextualizadas. Se a inovação representa algo novo, uma novidade, essa novidade só pode ser assim considerada em relação ao ambiente ao qual será aplicada. Vamos a um exemplo. Aparelhos de televisão são comuns de uso em escolas como recurso tecnológico didático que facilita a apreensão de conteúdos, especialmente aqueles que carecem de demonstrações visuais. Mas essa não era a realidade de certa escola pública, localizada nas margens de um pequeno rio amazônico. Nessa comunidade nem energia elétrica havia. Um grupo de pesquisadores estrangeiros instalou placas de energia solar na escola e doou um aparelho de televisão para a escola, para alegria da criançada e professores.

Neste pequeno exemplo nota-se com precisão o que é inovação e a importância do contexto ambiental para sua compreensão. O aparelho de televisão para a escola foi uma novidade, algo novo, inovador, apesar de ser costumeiro em quase todas as escolas do planeta. É que no ambiente daquela escola e daquela comunidade, carente daquele recurso, seu suprimento foi o desencadeador com processo inovativos.
O desafio do pró-reitor de inovação é justamente esse: identificar as necessidades do ambiente e supri-los. Isso é feito através de relacionamento próximo, íntimo, da instituição de ciência e tecnologia para com as organizações e stakeholders de seu ambiente de inserção. Várias razões exigem essa cumplicidade para resguardo dos segredos organizacionais e industriais. Isso requer desse profissional de ciência e tecnologia conhecimento técnico e científico, o que significa prática de geração de conhecimentos e de artefatos tecnológicos, e também de gestão. Mais precisamente, conhecimentos de marketing.

O marketing é a área especializada da administração cujo desafio é desenhar e executar suprimentos de necessidades do ambiente. Esses conhecimentos especiais facilitam os procedimentos de suprimentos porque descrevem com precisão o escopo das inovações de que o ambiente necessita. É com base no escopo que se desenham as estruturas analíticas dos produtos ou serviços, que representa o mapa detalhado da inovação.

Notem o que queremos mostrar: o conhecimento técnico-científico do pró-reitor de inovação e sua equipe permitem, de forma transversal, a precisão na descrição da necessidade, indo inclusive além, desenhando a própria inovação. Mas isso não é suficiente para que o sucesso seja alcançado. Além desses conhecimentos, é necessário que o processo gerencial seja aplicado em seguida, desenhando-se e executando-se o esquema de suprimento e os aspectos legais.

Esse esquema é a lógica elementar de toda atividade fim das organizações de ciência e tecnologia – e parece que é a mesma exigida para as atividades meio. Conhecimentos técnico-científicos aplicados simultaneamente com conhecimentos gerenciais. Os conhecimentos técnico-científicos garantem a identificação e definição precisa da necessidade e do produto ou serviço que lhe suprirá, enquanto os conhecimentos gerenciais focam o esquema operacional e funcional do suprimento, inclusive com as estratégias de follow up, que é o acompanhamento dos resultados obtidos com a solução por certo período de tempo após a solução ser implantada.

É certo que não há prescrição específica global para as funções deste executivo. Por exemplo, não se pode dizer que tem que ter profundos conhecimentos de engenharia ou de assistência social ou que entenda de astronomia ou contabilidade. O fato é que tem que conhecer as inovações necessárias do ambiente externo para que sua organização possa elaborar um plano de suprimento dessas necessidades. Como empreendedor interno, precisa representar internamente os interesses dos usuários e clientes e, junto a estes, os interesses institucionais. Como se pode perceber, capacidade de identificação de oportunidades, capacidade de inovar e capacidade de negociação são o tripé que todo pró-reitor de inovação precisa ter para que possa desempenhar com adequação sua posição.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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