Palmas, 18/08/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de pesquisa

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Pró-reitor de pesquisa


Todo pró-reitor de pesquisa é um executivo de produção. Como consequência, sua responsabilidade é pela geração dos produtos de pesquisa que o ambiente necessita e que, por ser uma atividade-fim, deverá ter como retorno os recursos de que sua organização precisa para dar continuidade ao sistema de produção. Embora o pró-reitor de pesquisa, assim como todo pró-reitor, seja o responsável institucional pelo sistema de produção, sua função não é propriamente fazer a produção, mas proporcionar todo o apoio de que os diversos subsistemas (campi) necessitam, especialmente como provedor de recursos. Como provém os recursos, ao pró-reitor compete, também, acompanhar a produção simultânea da produção para que possa prestar contas com o ambiente externo. Este artigo tem como objetivo explicar a função do pró-reitor de pesquisa nas organizações de ciência e tecnologia.

Muita gente que assume as pró-reitorias chega lá imaginando que sua função é mandar nos outros que estão abaixo na hierarquia da organização (e na sua cabeça só o reitor e seus colegas pró-reitores não estão) ou cumprir as exigências burocráticas da posição. Como não têm os conhecimentos gerenciais, não vê sua posição como desempenhando funções específicas na grande engrenagem que é o sistema organizacional e, mais especificamente, no sistema de produção de pesquisa. A primeira coisa que o pró-reitor de pesquisa recém-empossado precisa conhecer é a produção do seu sistema de produção. A pergunta que precisa ser respondida é "O que produzimos em pesquisa?" e, imediatamente, deve vir à cabeça do executivo a questão "Quanto produzimos de cada produto?". Só depois de conhecidas essas respostas ele deve se colocar a pergunta-desafio "Quanto devo produzir em determinado horizonte de tempo?".

Vejamos o caso de um diretor de pesquisa de um campus, posição similar ao de um pró-reitor de pesquisa. Assim que assumiu a direção, o experiente pesquisador fez a primeira pergunta e teve como resposta "32 relatórios de pesquisas anuais, que se transformam 41 artigos científicos produzidos e que dão lugar a 18 publicações em revistas qualificadas B1 e superior, no campo da produção científica; e 64 relatórios de invenção, que geram 115 pedidos de registros de patentes, mas que apenas 23 são efetivamente registradas, no Campo da inovação".

A resposta que teve já contemplou as perguntas de que precisava para orientar seu plano de ação. Vejamos. O que seu campus produzia? Pesquisa científica e pesquisa de inovação. Quanto era produzido? 32 relatórios de pesquisa, 41 artigos científicos e 18 publicações no primeiro sistema de produção; 64 relatórios de invenção, 115 pedidos de registros de patentes e 23 patentes registradas. Notem: pró-reitorias e todos os tipos de gestão lidam com produtos e todo produto produzido precisa ser contado. Essas contagens dizem ao executivo o quanto a organização produziu e que depois vai ser comparada com o quanto ela é capaz de produzir. É dessa comparação que vem (e deve vir) o plano de ação do executivo que tomou posse.

No caso dos pró-reitores, não são eles propriamente e suas equipes que fazem a produção. Sua responsabilidade é para com a produção sistêmica, global. Por essa razão, precisam que seus "subordinados sistemicamente" falem a mesma língua (o que produzem e quanto produzem em determinado período de tempo) para que forneçam as informações em mesmo formato para que possam ser globalizadas, sistematizadas. Com base nessas informações sistêmicas o pró-reitor é capaz de comparar o quanto foi produzido e quanto deve ser produzido para dar conta da demanda do ambiente externo.

Essas são questões de gerenciamento interno. Mas essas obrigações só têm sentido se, primeiro, a organização tiver um plano estratégico sério e, segundo, que a pró-reitoria de pesquisa (e todas as demais) tiverem seu plano estratégico. A razão disso é que o plano estratégico diz exatamente o que a pró-reitoria de pesquisa deve fazer para que, em determinado horizonte do tempo, a visão de futuro organizacional e da pró-reitoria possam ser materializadas. O alcance desses macroobjetivos permitirá que o futuro desejado possa ser construído. O desenho do futuro é conhecimento e habilidade que o pró-reitor de pesquisa precisa ter para que possa desempenhar com adequação suas funções cotidianas, ou seja, fazer a cada dia um pedacinho do futuro desejado.

Para que o futuro desejado possa ser desenhado e calculado, o pró-reitor de pesquisa e sua equipe precisam saber lidar com cenários e tendências. Técnicas diagnósticas e prognósticas precisam ser de suas intimidades, tão íntimas quanto devem ser os conhecimentos e habilidades em produzir conhecimentos de suas áreas de formação. Noutras palavras, fazer e desfazer cenários e seus desdobramentos em ações operacionais devem ser tão habituais quanto elaborar um projeto de pesquisa sobre nanopartículas ou sobre os fatores sociais que determinaram a eclosão da Revolução Francesa, para os cientistas dessas áreas.

Todo pró-reitor de pesquisa e sua equipe são como o setor de metais em uma orquestra sinfônica. Devem desempenhar papéis específicos, diferentes das demais equipes, mas em conformidade com o grande plano conduzido e monitorado pelo executivo maior, o reitor, que faz o papel de maestro organizacional. Para que o pró-reitor e sua equipe possa executar a canção organizacional, precisam dominar as técnicas e procedimentos gerenciais que lhes evitem ao máximo possível a dissonância a que toda nota estranha é capaz de causar. No caso das organizações de ciência e tecnologia, a dissonância provoca a ineficiência. Se a dissonância permanecer por longo tempo, a falência organizacional é mais do que natural.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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