Palmas, 21/07/2017

Opinião

Ciência e Tecnologia

Pró-reitor de relações institucionais

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Pró-reitor de relações institucionais


Geralmente as organizações de ciência e tecnologia nacionais se fecham em uma espécie de redoma evitando qualquer tipo de relacionamento com o mundo exterior, especialmente as públicas. Exceção à parte é realizada por aquelas que têm em sua estrutura um executivo estratégico com a missão específica para este fim. É o caso das organizações que mantém a posição de pró-reitor de relações institucionais. Algumas, contudo, têm a posição em terceiro ou quarto nível de comando, o que não é o mesmo quando está localizada na segunda linha, logo abaixo do executivo máximo. Quando a posição está em nível estratégico sinaliza com um tipo de conduta diferente de quando está em nível tático ou operacional. Desta forma, este artigo tem como objetivo explicar a função do pró-reitor de relações institucionais das organizações de ciência e tecnologia.

Para que se compreenda a função do pró-reitor de relações institucionais é necessário que seja entendida a dinâmica da relação da organização com o seu ambiente externo. Toda organização existe para cumprir uma missão institucional. Essa missão é sempre direcionada para o ambiente externo, o que implica em dizer que toda organização, para cumprir sua missão institucional, precisa se relacionar com o ambiente. E esse relacionamento é quase sempre em termos relacionais cliente-fornecedor, ainda que se pense em termos de parcerias, alianças estratégias, consórcios e outras modalidades interorganizacionais.

As organizações recebem do ambiente o que precisam para que possam produzir o que o mesmo ambiente necessita. Isso quer dizer que toda organização de ciência e tecnologia é supridora de necessidades do ambiente, suprimento este que responde pela e explica a sua missão institucional. Ao se comprometer a fazer o suprimento, a organização de ciência e tecnologia tece um acordo com o ambiente externo a partir de alguns de seus representantes, que podem ser denominados, internamente à organização de ciência e tecnologia, como clientes ou usuários, independentemente de sua natureza pública ou particular.

Para que possa produzir e entregar o que foi acertado com o ambiente externo, a organização de ciência e tecnologia precisa de insumos, pessoas, máquinas, equipamentos, serviços e toda sorte de recursos. Note o termo empregado aqui: recursos. Dinheiro não é o único tipo de recurso de que as organizações precisam para se abastecer do que precisam para fazer funcionar seus sistemas de produção e operações. Da mesma forma que aconteceu com os clientes e usuários, aqui a organização também tece uma rede de acordos de abastecimento com outros tipos de organizações do ambiente externo, chamados internamente de fornecedores.

Além disso, no cenário de sua atuação, outros atores interferem tanto na cadeia de abastecimento (fornecedores) quanto na distribuição (clientes e usuários). Esses agentes podem ser locais, regionais, nacionais e internacionais, tais como governos, organizações civis, organizações multilaterais, concorrentes etc. Como consequência, o cenário de atuação pode ser algumas vezes ameaçador, quando a maioria das suas dimensões exercem pressões no sentido de dificultar o cumprimento da missão institucional da organização, e outras vezes se transforma em fontes de oportunidades, que naturalmente precisam ser aproveitadas para a expansão e consolidação de suas operações e produção.

É justamente para ajudar a organização a lidar com as ameaças e oportunidades do ambiente externo que existe a figura do pró-reitor de relações institucionais. Como as forças ambientais externas são incontroláveis, é necessário que alguém as monitore e oriente os atores organizacionais internos na elaboração de esquema de ações para lidar com as ameaças e com as oportunidades consequentes. A ação desse executivo não está voltada apenas como intérprete e consultor interno. A maior parte de suas atitudes se concentram no follow up, contingenciamento, acompanhamento próximo, colado, das organizações e instituições das forças ambientais no sentido de amenizar o impacto dessas forças sobre sua organização.

Vejam um exemplo do papel desse profissional. Certa organização estava com dificuldades para importar e comprar determinado equipamento para seu laboratório. Esse equipamento serviria tanto para a formação de profissionais quanto para a realização de estudos na fronteira do conhecimento da engenharia e, especialmente, para o suprimento das necessidades de análise de materiais para um importante segmento da construção civil. Os fornecedores se recusavam a aceitar a proposta de parcelamento do pagamento, tendo em vista as enormes dificuldades das organizações públicas (e do governo brasileiro) em honrar seus compromissos parcelados. Essa dificuldade não é oriunda de desonestidade, mas pela irracional burocracia estatal para esses procedimentos.

Ao entrar em cena, o pró-reitor de relações institucionais, renomado justamente nessa área e conhecido tanto pelos fornecedores quanto pelos pesquisadores da área no país exportador, transformou a ameaça em oportunidade. Elaborou parceria com duas instituições de pesquisas do país de origem, com anuência do governo local e brasileiro, que previa a colaboração tanto em pesquisas quanto na prestação de serviços em toda a América do Sul. Ao invés de adquirir apenas um equipamento, foram adquiridos oito! E hoje essa instituição é referência para esse tipo de serviço em toda a América Latina.

Muita gente imagina a falta de necessidade dos pró-reitores de desenvolvimento institucional. Evidentemente que não é imperativo a existência dessa posição na estrutura organizacional, desde que o ambiente externo seja estável e certo, o que é uma utopia hoje em dia. O que é imperativo é que alguém precisa fazer esse papel institucionalmente. Como as ações são múltiplas e complexas e não podem ser desempenhadas em nível operacional, a saída é que sua existência comece como forma de assessoria às pró-reitorias até que se consolide como executivo estratégico. Não vale a pena deixar de lado o ambiente externo. A consequência quase sempre é desastrosa.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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