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ANTES DA DENÚNCIA, VEM O SILÊNCIO

Capacitação do Ministério Público orienta profissionais a identificar sinais invisíveis da violência enquanto forças de segurança ampliam prisões, proteção e canais de denúncia

Divulgação/SES/Secom.

O primeiro gesto de acolhimento pode ser decisivo para romper ciclos de violência.

Por: Luana Evangelista
luanajlima@gmail.com

Era madrugada quando Ana (nome fictício) chegou à unidade de saúde dizendo ter sofrido uma queda. O braço inchado, o olhar baixo e as respostas curtas revelavam algo além de um acidente doméstico. Antes mesmo de qualquer exame, ela precisava de algo que não constava no prontuário: ser ouvida sem julgamento.

Dias depois, Maria (nome fictício) também buscou atendimento. Disse que havia “se machucado em casa”, mas o histórico repetido de lesões e o comportamento retraído despertaram atenção. Histórias como as de Ana e Maria, evidenciam um ponto crucial no enfrentamento à violência contra a mulher: muitas vítimas procuram primeiro o sistema de saúde, e é ali que o ciclo de agressões pode começar a ser interrompido.

Atento a essa realidade, o Ministério Público do Estado do Tocantins (MPTO), por meio do Núcleo de Gênero (Nugen), fortalece ações preventivas ao orientar profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) sobre acolhimento humanizado e identificação precoce de sinais de violência. A iniciativa integra a atuação institucional voltada à promoção da cidadania e à proteção de direitos fundamentais.

ESCUTA QUE PROTEGE


Profissionais do SAMU e UPAs participam de capacitação
oferecida pelo MPTO – (Foto: Francisca Coelho/MPTO).

As capacitações destacam aspectos que vão além das marcas físicas: lesões recorrentes, medo excessivo, silêncio incomum e relatos inconsistentes podem indicar situações de risco. Para a psicopedagoga Leila Maria Lopes, o olhar atento dos profissionais pode transformar trajetórias. “O atendimento humanizado começa pela escuta qualificada. Muitas mulheres chegam fragilizadas, com medo e vergonha. Quando o profissional acolhe sem julgamento, garante privacidade e valida o relato, ele pode estar interrompendo um ciclo de violência e até salvando uma vida”, destacou.

A servidora Bruna Resplandes Junqueira, integrante da equipe do Nugen, reforça que a atuação da saúde é parte fundamental da rede de enfrentamento. “A saúde integra oficialmente essa rede. Notificar é um dever e também um ato de cuidado. É por meio dessas informações que o poder público consegue estruturar políticas mais eficazes de
prevenção e proteção”, afirmou.


Secretário de Estado da Segurança Pública, Bruno
Azevedo, fala da importância entre as instituições. (Foto: Reprodução/internet).

Enquanto a saúde atua como porta de entrada para o acolhimento, as forças de segurança ampliam as ações de enfrentamento com estratégias integradas. Coordenada nacionalmente pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, a Operação Shamar 2025 foi realizada no Tocantins entre 1º de agosto e 4 de setembro, reunindo esforços
de prevenção, repressão e conscientização social. No estado, a operação resultou em 121 prisões, sendo 102 em
flagrante, 17 por mandado de prisão preventiva e duas por descumprimento judicial. Também foram realizadas 544 diligências, 65 conduções à delegacia e o acompanhamento de 611 medidas protetivas de urgência.

O secretário de Estado da Segurança Pública, Bruno Azevedo, destacou a importância da articulação entre instituições. “Combater a violência contra a mulher exige compromisso permanente e ações efetivas. Trabalhamos para garantir proteção imediata às vítimas e responsabilização dos agressores, ao mesmo tempo em que fortalecemos a conscientização da comunidade para estimular a denúncia”, afirmou.

Além das ações operacionais, a iniciativa promoveu 163 panfletagens que alcançaram mais de 15 mil pessoas e 213 palestras em escolas, associações e comunidades, com público estimado superior a 17 mil participantes.

Números que exigem atenção

Durante o período da operação, foram registrados 2.362 boletins de ocorrência pelas Polícias Civil e Militar, enquanto 241 inquéritos policiais foram concluídos com autoria identificada. Por trás desses dados estão histórias como as de Ana e Maria, mulheres que chegam em silêncio, mas encontram na rede de proteção caminhos possíveis
para superar situações de violência.

Proteção

Romper a violência também passa pelo acesso à informação. Mulheres em situação de risco podem buscar ajuda por meio de canais gratuitos e sigilosos:

Disque 180 – Central de Atendimento à Mulher

190 – Polícia Militar (em situações de emergência) Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs)
Aplicativo Salve Mulher, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Segurança Pública do Tocantins A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa.

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