Wednesday, 18 de September de 2019

GERAL


A essência da velhice

22 Jun 2010

José  João Neves Barbosa Vicente

josebvicente@bol.com.br  
              

           

De um modo geral, as pessoas não gostam de falar sobre a velhice, afirmam quase sempre que têm pavor. No entanto, algumas palavras são necessárias e, para começar, cito Comte-Sponville em sua obra Une éducation philosophique: “A velhice é essa última palavra de viver, de que somente uma  morte prematura pode nos poupar”.

Por causa da sua imagem e da idéia comum de ver a morte como a sua companheira inseparável, a velhice é temida e evita-se falar sobre ela. Ora, é necessário tratá-la sem ilusão e sem pintura, como algo natural, parte inseparável da vida. Ninguém deve negar, por exemplo, que chegará um dia, que mesmo sendo saudável, o tronco e as pernas deixarão de obedecer a vontade do homem. Seu corpo cheio de frescor e muitas vezes de sensações agradáveis, ficará cansado, tremendo, vagaroso, desajeitado e se deteriorando. Nesse “estagio”, o homem se apavora com qualquer coisa e tudo o cansa, em alguns casos,  ele precisa de ajuda até mesmo para resolver suas necessidades básicas. É a velhice. Uma experiÍ ncia que os homens insistem em resistir, mas sem sucesso. Apenas escapa dela quem morre jovem. Se para muitas pessoas, a juventude representa vigor, progresso, esperança e otimismo, a velhice representa o contrário de vigor, do progresso, da esperança e do otimismo. No fundo, é como disse Goethe citado por Arendt em sua obra Between pst and future, “envelhecer é o gradativo retirar-se do mundo das aparências". A velhice altera a forma como se sente a vida.

O jovem não consegue se identificar com o velho. Ou melhor, ele resiste à idéia do seu próprio envelhecimento. Apesar de Morin em O metodo5 ter declarado que “cada idade possui as suas verdades, as suas experiências, os seus segredos”, uma coisa é certa, a sensação “talvez  eu fique velho um dia” pode estar totalmente ausente no jovem. Mas,  um dia, a sensação de “durar para sempre” desfalecerá;  o sonho “de conquistar o mundo” ficará embaçado; a poltrona e a cama serão os locais da diversão; as paixões, os desejos e as chamas do coração congelarão  e o seu maior projeto será morrer e ter um enterro digno. O homem  deve perceber o significado da vida cedo, pois a velhice brevemente o abraçará.  E como disse Sêneca em Da tranqÿilidade da alma, “nada é mais desonroso do que um homem velho, vergado pelos anos, sem outra prova de que viveu a não ser a da sua idade”.

Afirmações como: “velho significa experiência”; “velho tem sabedoria”; “velhice é a melhor fase da vida”; “quanto mais velho, mais sábio”; “é velho mais está em forma”, etc., significam, no fundo, a não aceitação da velhice, afinal, velho é velho. Um ser “prudente” que, em vez de se preocupar com conceitos e abstrações, prefere afetos. A velhice  não precisa ser mascarada para aparentar ser aquilo que não é. Ela não deve ser entendida como algo vergonhoso. Ela é, naturalmente, quer seja dita de uma forma simples ou primorosa a porta de saída que conduz para o fim natural da existência física. Descrever a velhice na sua essência, sem máscara e sem ilusão, não significa entendê-la ou pretender apresentá-la como sendo uma fase medíocre da vida, mas como um objetivo da existência que deve ser perseguido por todos.

Afirmei, portanto, no inicio, que a idéia da velhice, por estar  comumente associada à idéia da morte, ela é muitas vezes tratada com receio. Ou como disse Cícero em seu livro Saber envelhecer, as pessoas pensam a velhice como uma fase de vida detestável devido a quatro razões: 1. afastamento da vida ativa; 2. enfraquecimento do corpo; 3. privação dos “melhores” prazeres e 4. aproximação da morte. Porém, não se deve esquecer que se ensina todos os dias que o belo é “jovem”.  Não se deve esquecer, também, que o nosso mundo é caracterizado pelo consumo e o homem é visto como um ser produtivo. Assim quando ele não consegu e mais produzir, é visto como um fardo que dolorosamente “deverá” ser carregado pela família ou pelo Estado. Ora, é necessário esclarecer todos os dias o significado da velhice. Dizer incessantemente, que ela não é a fase triste da vida, mas parte da vida; que ela não deve ser temida, mas desejada e que não se deve esquivar-se dela, mas que ela deve ser perseguida. As pessoas precisam ser educadas para a velhice para que possam encarar esse assunto como algo natural.

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