Tuesday, 22 de October de 2019

GERAL


A miséria da política

11 Sep 2010

José João Neves Barbosa Vicente


Em Facisme et communisme, Furet e Nolte afirmam que “o homem democrático sofre por ter sido privado de uma verdadeira comunidade humana pela civilização liberal”. É praticamente impossível não concordar com eles.

Reduzido à figura virtual do sujeito, o homem não passa de um ator virtual privado de toda responsabilidade no campo político. É correto afirmar com Besançon, de acordo com o seu livro Le malheur du siÿcle, que nos regimes totalitários a única política realizada foi “a destruição do político”. Sim, mas não se pode deixar de afirmar, também, que as democracias contemporâneas reduziram o cidadão à pura virtualidade do sujeito jurídico. Quando o sujeito aparece, o mundo político se retira como se o jogo das virtualidades tomasse doravante o lugar das realidades efetivas do poder. Em todas as grandes democracias contemporâneas assistimos ao declínio acentuado da participação dos cidadãos no exercício da vida política e ao retraimento do espaço público invadido pela vida privada dos indivíduos ou por sua exposição midiática.

A mais chocante ilustração da demissão do político é a das pesquisas de opinião, sobretudo em períodos eleitorais. Acreditando na racionalidade de seus modelos teóricos e procedimentos científicos de tratamento da informação, os institutos de pesquisa de opinião tendem a substituir a realidade de uma eleição pela imagem antecipada de seu resultado. Ocorre que o recurso generalizado à opinião dos sujeitos que são pessoas reais, em domínios onde não possuem nem conhecimento nem competência, transforma o conjunto das respostas coletadas numa opinião política virtual, proveniente do trato da pulverização das perguntas e dos sujeitos, que revela uma escolha política virtual.

Elas conseguem fazer os menos esclarecidos desistirem dos seus objetivos. Em muitos casos, quando as pesquisas de opinião afirmam que alguém está “virtualmente” à frente, muitos acabam desistindo daquele que está “virtualmente” atrás ou então se junta  àquele que está “virtualmente” à frente. É que a grande massa não consegue entender que ninguém, numa eleição, por exemplo, está à frente nem atrás, mas apenas no caminho. As pesquisas de opinião levam a grande massa a confundir pura e simplesmente o real com o virtual. Nenhuma realidade dá o privilégio a uma pessoa de “estar” em algum lugar, antes de ocorrer a eleição. Na verdade, as pesquisas de opinião subjetivam a “vida” política e substituem a modalidade do real pela do possível. Supor que o futuro se submeterá à determinação de uma virtualidade anterior e afirmar, por exemplo, que o candidato virtual que não existe efetivamente será deputado, presidente, prefeito, vereador, governador, senador... pela única razão de que é possível, significa eliminar a realidade das ações humanas na sua substancialidade e na sua contingência históricas, unicamente em benefício de sua possibilidade, a qual é reduzida, contraditoriamente, à “realidade” dessa possibilidade que, em última análise, não é senão a “realidade” do sujeito virtual inserido num campo político virtual. Quando, por exemplo, o instituto francês CSA explicava constrangido, como relata Mattei em sua obra La barbárie intérieure, que nenhuma pesquisa havia colocado Jospin em primeiro lugar antes do primeiro turno da eleição presidencial, em 23 de abril de 1995, porque o candidato socialista “não estava na frente” (sic) n o momento das pesquisas, ele confundia pura e simplesmente o real com o virtual. De fato, Jospin não “estava” nem à frente nem atrás de outro candidato; ele nem sequer “estava” entre eles, pois nenhuma realidade lhe dava o privilégio de “estar” presidencialmente em algum lugar, uma vez que a eleição presidencial ainda não havia ocorrido.
 
José João Neves Barbosa Vicente – josebvicente@bol.com.br    
Filósofo, professor da Universidade Federal do Recÿncavo da Bahia (UFRB)

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