Friday, 17 de January de 2020

GERAL


Em nome de Deus: A morte de Saramago e o Twitter de Marina Silva

30 Jun 2010

Por Tiago Pereira

tiago_pereira_@hotmail.com

 

No último dia 18, Copa à parte, o mundo ficou bem mais triste. Perdemos José Saramago, Nobel de Literatura e um dos mais incríveis homens. Seus escritos, num estilo bastante peculiar, conseguem ser, ao mesmo tempo, clássicos e modernos. Um gênio, equiparável aos grandes de todos os tempos, e para o nosso século, possivelmente o mais importante escritor. Apelava à reflexão. Não se furtava perante as grandes questões do nosso tempo. Um militante. A consciência crítica da esquerda mundial. Merecedor de todas as homenagens. Deixa saudade e um legado fantástico. Seu único pecado: a descrença em Deus.

No Twitter, a nova coqueluche da internet, comoveram as mensagens de pesar. Dado o seu histórico de engajamento político e o clima eleitoral entre nós, os principais candidatos, que fazem uso da ferramenta virtual, emitiram suas impressões e condolências. As esquerdas tupiniquins prestavam homenagem. A língua, além de sonhos e princípios, nos unia.

Eis que, no auge da comoção, fomos surpreendidos por mensagens enviesadas da candidata Marina Silva, do PV. “Morre José Saramago. O mundo perde um grande escritor e os países da língua portuguesa, o nosso primeiro prêmio Nobel.” Na seqüência, o microblog de Marina replicou a mensagem de @wvmedeiros; para ele o escritor “não respeita a fé alheia”. “Grande escritor é muito subjetivo. Alguém que não RESPEITA a fé alheia não é exatamente um GRANDE escritor.” A mensagem de @iara_meirelles, também replicada pela candidata, ou sua assessoria, continha o seguinte comentário: “Como podemos lamentar a morte uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda?”.

Reza a etiqueta do Twitter que quem replica, por conseqüência, endossa. Pegou mal. Em seguida, a assessoria tratou de fazer o “abafa”, alegando que a candidata não concordava com os posicionamentos apresentados. Não engoli. Ao menos, fica patente que certos grupos religiosos radicais se aproximam da candidata. Não é exclusividade dela, mas agrega com mais força, por também professar do credo evangélico - talvez injusta generalização, mas são, sempre, os mais radicais. Pintados de verdes, se disfarçam de modernos.
 
O que o episódio também deixa claro é o processo manco de separação entre política e religião. Um mal que deve ser combatido. Política diz respeito aos homens, não a Deus. Os que fazem uso disso, via de regra estão imbuídos de maus propósitos. E a receita explosiva pode ser comprovada ao longo de toda a história. Quando os mundos da política e da religião se tocam, via de regra, jorra sangue.
 
No Brasil, devemos manter a vigilância e conservar o legado de tolerância religiosa. E os evangélicos, mais radicais, precisam entender de uma vez por todas que sua condição de “eleitos” não interessa a quem não professa da mesma fé e que religião não deve ser critério para se votar ou não em alguém. Que respeitem não só católicos, mas umbandistas, budistas e ateus. O ateísmo, que causa desconforto aos crentes, não é uma afronta, e via de regra, tal posicionamento apresenta-se fortemente embasado em outros princípios e reflexões.
 
Fica o ensinamento de mais de três séculos, do filósofo inglês Thomas Hobbes, temente a Deus. Segundo ele, grosso modo, o homem é movido por paixões, e por elas, capaz de tudo fazer. No seu entendimento, a maior das paixões seria justamente a religiosa, logo, a mais perigosa. Para tanto, dada a pluralidade de crenças, para que a sociedade coloque-se em pé e viva com o mínimo de harmonia, limites devem ser respeitados. A religião não deve invadir a esfera pública, deve ficar restrita aos espaços privados, locais de cultos e residências. Na rua, não. No Twitter, não. Na política, muito menos.

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