Monday, 24 de June de 2019

GERAL


O deserto em nossa cabeça

16 Dec 2009

Imagino que vocês estejam esperando mais uma coluna sobre Copenhague ou sobre o iminente presente de 10 bilhões de reais para proprietários agrícolas em situação ilegal que está para ser publicado no Diário Oficial. Nada de novo sob o sol. Aproveitemos então o mote de vivermos em um deserto de idéias para falarmos sobre desertos de verdade.

Ontem à noite vi uma palestra do ambientalista indiano Anupam Mishra sobre métodos ancestrais de coleta de água no deserto de Thar. Anualmente chove 250 l em cada metro quadrado neste deserto indiano enquanto no nosso semi-árido chove 750 litro por metro quadrado.

Acompanhe-me ao longo de alguma aritmética. A cota mínima de dez metros cúbicos mensais que muitas companhias de água nos obrigam a pagar, soma em um ano 120.000 litros de água. Dá para viver decentemente com bem menos, mas fiquemos com este valor. Quanta área eu preciso para recolher esta água em um ano ? No nordeste são 160 metros quadrados e 480 no deserto de Thar.

Isto implica dizer que se você impermeabilizar uma área de 20 m x 8 m e direcionar a chuva para um tanque, não precisará comprar água para o resto da vida, ou pelo menos enquanto o clima agüentar as desditas de nossos governantes. No Sul e Sudeste você pode cortar esta área pela metade.

Sr Mishra mostrou a variedade de estruturas criadas pelos indianos ao longo de milhares de anos para recolher a água da chuva. Reis construíam Jhalaras, grandes tanques que recolhem parte da água infiltrada em açudes também construídos para recolher a água da chuva, que têm o nome de Khadin.  Tankas recolhem a água do telhado das casas. Em áreas montanhosas os Kul, canais estreitos conduzem a água de degelo para os depósitos. Com outro nome, se faz o mesmo na Ilha da Madeira.

Em todas estas obras, arte cultura e engenharia se misturam. Em um destes tanques foram colocadas estátuas de animais nas paredes. Cada animal emerso significa um nível de conservação de água. É um meio de comunicação de massa sobre a disponibilidade de água em cada momento. Em algumas Jharalas um lindíssimo padrão de escadarias se cria com a variação do nível da água.

O uso de água da chuva não é só positivo por melhorar a vida das pessoas. Depois usa-la, de alguma forma esta água irá realimentar a água subterrânea ou ser evapotranspirada pelas plantas na época das secas quando ela é mais necessária. Se conseguimos mudar o clima para mais desértico porque não conseguimos mudar para mais chuvoso ?
 



Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva.

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