Saturday, 24 de October de 2020

GERAL


O prazer e a dor

17 Sep 2008

Ao longo da história, muitos pensadores entenderam, definiram e defenderam a idéia do prazer como ausência de dor. Eles estavam errados. Seus argumentos não resistem à análise.

Na perspectiva de Platão, Sócrates, condenado à morte e, por alguns instantes, livre das "algemas" experimenta um grande sentimento de alívio, um verdadeiro prazer em movimentar livremente braços e pernas, enquanto outrora, quando em liberdade, não sabia gozar esse prazer. Este último, no caso, confunde-se com a cessão da dor infligida pelas correntes. A mesma opinião pode ser encontrada em Epicuro, um pensador que não tinha uma boa saúde, vítima de moléstia cada vez mais penosa, à medida que envelhecia, o prazer tornou-se para ele a felicidade, como para os estóicos fôra a virtude. O supremo prazer, não o prazer "artificial" (luxo, vaidade...) é a ausência de dor e de agitação. Uma fuga da todas as ocasiões de dor, de todos os riscos e de todas as aventuras. Por isso, para o Epicuro, a moral do prazer consiste em levar uma vida prudente e quase ascética, a fim de afastar quaisquer circunstâncias dolorosas.

Finalmente, para Schopenhauer, toda necessidade é sofrimento, porque é ausência de um bem desejado, enquanto o prazer da posse reduz-se à ausência de sofrimento.

Schopenhauer admite que somente o sofrimento é positivo; o prazer é apenas a negação do sofrimento. Ele se inspira, no caso da religião budista, que só concebe a felicidade sob o aspecto da cessação do sofrimento, cuja forma acabada é o nirvana. Então, para o Sócrates platônico, para os budistas, para Epicuro e para Schopenhauer, o prazer se define como a ausência de dor.

Ora, como disse no início, os argumentos desses pensadores não resistem à análise. Elas estão fundamentadas em preconceitos de ordem moral e não em análise objetiva. Se se afirma que o prazer é simplesmente a negação da dor, é com o objetivo de depreciar o prazer. Deliberadamente esses argumentos confundem a necessidade com a dor, para afastar o homem da busca de certas satisfações carnais, para que ele se contente com o ideal de serena indiferença, de ausência de perturbações e de desejos que constituem, por exemplo, a "ataraxia" epicurista. Esses argumentos "clássicos" sobre o prazer e a dor não são senão argumentos hipócritas, de um moralismo austero e que consiste no seguinte: em última análise, o prazer não exige muitos cuidados, ele é apenas a ausência de dor! Na realidade, a ausência de dor e o prazer são dois estados bem distintos. Suprimir uma necessidade não é, absolutamente, o mesmo que e satisfazê-la.

O prazer não é um estado puramente passivo, a simples cessação da dor: o prazer é o coroamento de uma atividade. Ele aperfeiçoa, espontaneamente, o exercício e o desabrochar de todas as funções naturais. O prazer não pode ser explicado por uma excitação exterior, independente das tendências do sujeito. O prazer pertence, inteiramente, ao sentido da necessidade. O ser vivo dirige, espontaneamente, para o alimento ou para o companheiro sexual. E o prazer corresponde à conquista e, inclusive, à antecipação do objeto complementar pela tendência apropriativa. No caso do prazer, a afetividade conclui e coroa a atividade.

Enquanto o prazer, precedido por uma necessidade, supõe a conquista de um objeto que inicialmente está ausente, a dor revela, ao contrário, a presença de um obstáculo e provoca um movimento reflexo para se libertar do mesmo. O prazer marca o sucesso de um impulso para um objeto, a dor precede à expulsão de um obstáculo. Os estímulos da necessidade estão invariavelmente ligados à antecipação de um objeto presente cujo afastamento os alivia. No caso da dor, é a afetividade que precede a atividade. A dor é a primeira com relação à atividade de defesa que expulsará o obstáculo. A ação reflexa que sucede a dor é uma atividade de repulsão que visa não a procura de um objeto, mas a afastar alguma coisa. A dor não está no mesmo plano do prazer. Este último está ligado ao sentido da necessidade, a dor ao sentido da defesa.

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