Monday, 21 de October de 2019

GERAL


Os sofredores de dois mil e dez (ligado)

05 Jul 2010

Por Antonio Brás Constante

Nos tempos das cavernas as tribos se dividiam entre os caçadores que atacavam e tinham que furar a defesa adversária (entenda-se o corpo de seus inimigos) com suas lanças pontiagudas, enquanto um segundo grupo ficava defendendo o próprio território com unhas e dentes (e cabeçadas, chutes, mordidas, etc.). Naquele tempo o mata-mata era literal e cruel em nome da sobrevivência (algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje nas guerras entre grandes corporações financeiras).

Nestes eventos antigos, quem ia ao combate: ou ganhava, ou morria pelo caminho. Mas o fardo de quem defendia era o pior, pois eles eram escravizados e amaldiçoados, tornando-se verdadeiros sofredores.

Toda esta disputa acabou ficando enraizada no DNA humano, garantindo seu espaço nos dias atuais (juntamente com as células de gordura que um dia já foram um fator mais desejável para o nosso organismo). Com o passar do tempo vários aspectos das ancestrais batalhas foram se traduzindo no que hoje entendemos como FUTEBOL. Os sofredores também se modificaram e hoje são conhecidos como goleiros.

Se o gol acontece, sai junto com ele à expressão máxima do som humano, ou seja, o grito, que indiferentemente se é de dor, tristeza ou alegria, utiliza os pulmões de forma soberana. Em segundo lugar ficam as gargalhadas, e disputando a terceira posição temos o pum, o ronco, a tosse e os espirros (não necessariamente nesta ordem). Mas quando um goleiro consegue de modo heróico efetuar uma defesa, o que se ouvem são apenas suspiros, resmungos e lamentações sem muita empolgação.

O mundo do futebol é todo modelado para que os gols aconteçam (para total desespero dos goleiros), não é à toa que são dez jogadores em campo atacando e querendo marcar o seu golzinho (e isso inclui os zagueiros), contra apenas um ser solitário e deixado para trás, que fica sempre tentando atrapalhar a festa das torcidas e dos artilheiros.

Na copa os jogadores sofrem, a grama pisoteada sofre, os técnicos (sempre apontados como a causa e a solução para todos os problemas em campo) sofrem, as torcidas sofrem, os insetos atropelados pela bola sofrem, nações inteiras sofrem, mas ninguém sofre mais do que o bom e velho goleiro. Durante cada partida as faltas imperam no tablado do gramado. Falta uma boa escalação, falta de talento, falta de sorte, falta de gols, etc. Mas o peso sempre é maior quando falta ao goleiro (na fração de segundo que antecede o gol) a defesa necessária para evitar a derrota amarga.

Todo goleiro, sem exceção, defende muito mais do que falha, mesmo no caso da Coréia, que levou sete gols de Portugal. O goleiro coreano defendeu muito mais vezes do que os gols que tomou, mas isso não importa. O mesmo vale para os “frangueiros” da copa, como no caso do excluído Green, um bom goleiro que por infelicidade tomou um frango e perdeu a posição como titular. Por outro lado se os ditos goleadores como Luis Fabiano (já escalado para seleção de handebol) ou Cristiano Ronaldo, passam meses sem fazer gols, isso necessariamente não ameaça a sua titularidade em campo, porque são “craques” (onde o craque parece virar sinônimo do crack, já que ambos se apresentam como verdadeiras drogas).

Os goleiros podem fazer defesas fantásticas que mesmo assim não levam o mérito merecido (ou mesmo o merecido mérito). Por exemplo, no jogo entre Itália e Nova Zelândia, onde o goleiro Paston fez defesas incríveis (em alguns casos quase impossíveis), o que saiu na imprensa? Que a Itália jogou mal, que os jogadores italianos estavam em uma fase ruim, mas cadê o mérito do goleiro? A Itália perdeu porque jogou mal ou porque naquela partida havia uma muralha humana e solitária em seu caminho?

Enfim, em copa do mundo de jabulani, onde ninguém sabe ao certo a trajetória da bola (ou mesmo quem ganha e quem perde o mundial), os sofredores, sempre tão culpados pelas derrotas de seus times, quem sabe agora possam compartilhar um pouco dessa culpa com a bola... Ou não. Para terminar, fica a cena da seleção brasileira (formada por um Dunga, onze sonecas e uma torcida de 190 milhões de zangados) entrando em campo com cara de quem ia chupar a laranja até sair suco, mas no final acabou chupando bala, e o que talvez fosse Brasil acabou sendo BraZEBRA.

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