Wednesday, 18 de September de 2019

GERAL


Poemas do povo da noite

06 Apr 2010

A poesia é matéria de subversão, notícia incapturável, mãe de toda metáfora, ofício que oscila entre o abandono das coisas vilipendiadas e o fascínio de enigmas inomináveis. “Não marca hora e nem lugar”. Uma poesia que nasce de um tempo sombrio, da escuridão, do delírio, da dor subterrânea, do grito proibido, do verbo estilhaçado, uma voz que conduz a sede e a fome de liberdade de toda uma geração, é um canto entendido em ressurreição. Assim o poeta Pedro Tierra teceu, nos cárceres da ditadura militar, Poemas do povo da noite, um livro de memória e denúncia, imprescindível à história de luta do povo brasileiro – um monumento literário de resistência às atrocidades do regime militar. O autor é um sobrevivente e, agora, nos brinda, com a reedição da obra, para lembrar os trinta anos da Lei de Anistia.

Pedro Tierra é o pseudônimo que Hamilton Pereira da Silva, filho de Porto Nacional, adotou para driblar os agentes da repressão sobre a verdadeira identidade do autor daqueles versos escritos no calabouço. Os poemas saíam da prisão pelas mãos generosas do padre Renzo Rossi e do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, escritos em pequenos papéis de maço de cigarro, dentro de canetas Bic amarelas. Tierra foi preso em 1972, quando tinha 24 anos, e cumpriu cinco anos de reclusão. Era acusado de subversão e de atentar contra a segurança nacional. Viu morrer, sob a tortura, inúmeros companheiros; sofreu na própria carne a insanidade de seus algozes, mas sobreviveu para continuar lutando pela democracia, cantando em defesa da vida, da liberdade humana.

O livro foi editado primeiro na Espanha, cuja edição fora premiada com Menção Honrosa pela Casa de las Américas. Anos depois, traduzido para o alemão, italiano, francês e inglês. Ainda em 1978 uma revista alemã publicou alguns poemas de Pedro Tierra em conjunto com textos de Thiago de Mello, Josué de Castro, dom Hélder Câmara e João Cabral de melo Neto, sob o título de “Um novo céu – Uma nova terra”. Somente em 1979, após conhecido na Europa e países da América Latina, “Poemas do povo da noite” chega ao Brasil.

No prefácio, Pedro Casaldáliga, afirma que “ninguém pode ler estas páginas como quem desfolha mais um poema.” O jornalista Cláudio Abramo, num artigo de 1981, publicado pela Folha de São Paulo, manifestou a grata surpresa de descobrir a obra do jovem poeta ex-preso político, e que “gostaria de mostrar os versos de Pedro Tierra a Giuseppe Ungaretti, a T. S. Eliot, a Stephen Spender.” O importante pensador cristão, Tristão de Athayde, resenhou o livro em 1979, e destacou: “Assim como Garcia Lorca ficou gravado na história literária da Espanha como o poeta da resistência espanhola ao terrorismo franquista, esse jovem brasileiro de nome espanhol ficará provavelmente como a maior expressão poética da resistência ao terror ditatorial dos nossos últimos quinze anos.”

“Fui assassinado/ Morri cem vezes/ e cem vezes renasci/ sob os golpes do açoite. (...) Em cinco séculos/ reconstruí minha esperança./ A faca do verso feriu-me a boca/e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.” Escreveu o poeta no poema de abertura do livro. Oportuna e necessária a leitura de Poemas do povo da noite, pelo o que revela, pela grandeza de espírito de uma arte praticada em tempos soturnos. Ainda mais agora, momento em que se discute, com avanços e recuos, a punição aos autores desses crimes que macularam a recente história da democracia brasileira.

Paulo Aires Marinho é pedagogo, poeta, servidor da Universidade Federal do Tocantins. Autor do livro “Perto do Fogo – Trilogia do Amor, da Terra e da Esperança.” -- E-mail: pauloaires@uft.edu.br 

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