Saturday, 31 de October de 2020

OPINIÃO


Opinião

A "justificativa divina" de Kátia Abreu para a manutenção da hegemonia de poder

22 Mar 2013

Por Wanderley Fernandes da Cruz


O artigo “Milícias do pensamento”, de autoria da Senadora Kátia Abreu, publicado em 16 de março de 2013, no jornal Folha de São Paulo, impressiona por dois motivos: pelo besteirol que fala sobre Antônio Gramsci (FOTO) e pelo viés ideológico que revela. O texto, construído em uma oposição semântica do tipo “bem versus mal”, evoca o discurso religioso como sustentação dos argumentos. Esse discurso esteve presente em diversos momentos de nossa história, envolvendo personagens e situações bem específicas. No texto, fica claro que do lado do mal estão Gramsci, o MST e os defensores dos Direitos Humanos. Resta, então, uma questão: quem seriam os anjos do bem?  Busquemos a resposta na história, inimiga número um dos corruptos e opressores.

Se, na década de 30, Gramsci era o anticristo, nas formulações da Senadora, quem, nessa época, era o paladino do bem? Vejamos. Gramsci era líder do Partido Comunista Italiano. Morreu em uma prisão fascista em 1937, depois de 11 anos de cativeiro. O juiz que o condenou proferiu uma sentença conhecida: “precisamos impedir esse cérebro de pensar por 20 anos”. Em vão, pois a maioria de seus escritos se deu dentro da prisão. Ele lutou contra, por exemplo, a reforma educacional do governo, que reservava o “ensino completo” às classes altas e destinava aos pobres outro ensino, de formação profissional. Esse governo, contra o qual lutava Gramsci era o de Benito Amilcare Andrea Mussolini, líder do Partido Nacional Fascista. Mussolini fechou o legislativo, os órgãos de imprensa, promoveu a corrida imperialista e flertou com o nazismo de Hitler. Ora, observa-se, com isso, que a heresia cometida pelo anjo do mal Gramsci foi insurgir-se contra o anjo do bem Mussolini. Isso faz que o primeiro mereça o inferno, ao passo que o segundo, o paraíso. Pode ser, já que Mussolini aproximou-se dos católicos por meio do Tratado de Latrão.

Na década de 80, no pós-guerra, Ronald Reagan, Presidente dos Estados Unidos, em seu discurso Liberdade Religiosa e Guerra Fria, proferido na Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos, referia-se a um “império do mal”. O anticristo da vez, a que se referia Reagan, era a URSS e os países que compunham o Pacto de Varsóvia, tais como Cuba, China, Coréia do Norte e Alemanha Ocidental. A União Soviética, que também cometeu muitos excessos na defesa de um ideal, defendia, em tese, uma economia planificada e a igualdade social, ou seja, o comunismo. Desnecessário dizer que os anjos do bem eram os EUA e os países que compunham a OTAN, como a Itália, Inglaterra, Coréia do Sul e Alemanha Oriental. Os Estados Unidos defendiam o capitalismo, baseado na economia de mercado, na propriedade privada, de que tanto gosta a autora de “Milícia do pensamento”, e na exploração do homem pelo homem. O céu, assim, é o reduto do capitalismo imperialista.

Já em 2002, o então presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, em seu discurso anual no congresso norte-americano fez menção a um “eixo do mal”, o qual era preciso combater. Compunham o “eixo do mal” a Coréia do Norte, o Irã e o Iraque. Sob o argumento de que os demônios do “eixo do mal” produziam armas de destruição em massa para, em uma trama diabólica, acabarem com o mundo, assistimos aos EUA arrasarem o Iraque, enforcarem Saddam Hussein, provocarem a morte de cerca de cem mil civis, gastarem trilhões de dólares, não promoverem a democracia nem a paz relativa. Como não encontraram nenhuma arma de destruição em massa, acredita-se que o real objetivo dos Estados Unidos era conquistar as reservas de petróleo iraquianas. Mais uma vez, a cruzada contra os ímpios e em nome do Senhor tem como pano de fundo a hegemonia capitalista.

No Brasil, também houve lutas do bem contra o mal. Por exemplo, ao mesmo tempo em que o demônio João Goulart se preparava para anunciar sua carta política, que continha propostas para reforma agrária e combate ao analfabetismo, os ungidos deputados de direita e muitos católicos organizavam, em 19 de março de 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, reunindo quase 500 mil pessoas para pedir a renúncia de Goulart. A batalha do bem contra o mal que ocorreu no Brasil de 1964 a 1988 aniquilou muitos anjos do mal, como Vladimir Herzog, Rubens Paiva e Carlos Marighela. Faço referência a 88 porque tenho a ANC (Assembleia Nacional Constituinte) como marco do fim da Ditadura Militar no Brasil e porque da análise que os estudiosos fazem da correlação de forças que permeou a elaboração da Constituição Federal, extraímos a resposta para a nossa pergunta: quem são os anjos do bem que têm a missão de combater os hereges, defensores dos Direitos Humanos e do MST? Conforme Dom Tomás Balduíno, em Reforma Agrária e Constituição, artigo publicado no caderno de textos da Câmara dos Deputados, em 2009, “tivemos, na realidade, uma Constituição fruto de votantes que, em considerável percentual, e em vários assuntos, votaram em causa própria. O exemplo flagrante disso é a questão da desapropriação da terra. Como poderia o povo esperar outro texto constitucional sobre reforma agrária proveniente de deputados e senadores latifundiários, escravistas, integrantes da bancada ruralista, o ‘Centrão’, ou aliados Destes?” Temos, dessa forma, os anjos do bem de hoje. 

Pelo exposto, observa-se que o discurso religioso tem servido para legitimar verdadeiras atrocidades, cometidas sob a justificativa de que se trata de uma batalha do “bem versus o mal”, mas que, na verdade, é uma guerra para a manutenção da dominação de uma classe sobre outra, é a justificativa divina para a hegemonia.  Não quer isso dizer que os cristãos coadunem com os ideais fascistas, nazistas, hegemônicos e capitalistas, mas apenas que tem sido recorrente o uso, pelos opressores, da oposição “bem versus mal”, para massacrar os que vão contra seus mandamentos. Dessa forma, a mim, agnóstico, é preferível compartilhar o inferno com Gramsci, Marx, Lênin, Herzog, Marighela, Rubens Paiva, MST e Defensores dos Direitos Humanos, a habitar o mesmo céu que Mussolini, Hitler, Reagan, Bush, Governos Militares e a nobre Senadora.

 


http://4.bp.blogspot.com/-g3hag5E0qOM/UUxs5-5MnpI/AAAAAAAAA1s/IBE71b9UtxI/s1600/wander.jpg
Wanderley Fernandes da Cruz é professor de língua portuguesa e literaturas, técnico judiciário e militante do PSOL-TO. - e-mail: wanderleyfercruz@hotmail.com

COMPARTILHE:


Confira também:


Tocantins

Atividade produtiva segue estável, mas empresários da indústria mantém confiança, de acordo com pesquisa da Fieto

Sondagem Industrial do 3º trimestre e Índice de Confiança de outubro estão disponíveis no site www.fieto.com.br.

Covid-19

Tocantins registra 331 novos casos da Covid-19

Atualmente, o Tocantins contabiliza 234.022 pessoas notificadas com a Covid-19 e acumula 75.425 casos confirmados. Destes, 63.347 pacientes estão recuperados, 10.981 pacientes seguem em isolamento domiciliar ou hospitalar e 1.097 pacientes foram a óbito.



Eleições 2020

Otoniel participa de debate realizado por acadêmicos da UFT nesta sexta-feira

Segundo os organizadores, o objetivo é oportunizar aos postulantes ao Paço municipal um espaço democrático para o debate de ideias e propostas para áreas fundamentais, como moradia, saúde, educação, geração de empregos e renda entre outras.


Campo

Governo trabalha na implantação de Unidade de Pesquisa e Extensão Rural do Tocantins

Unidade ocupará área de 28 ha, com a instalação de mais de 20 projetos de pesquisas voltado aos produtores rurais para replicação em suas propriedades


Meio Ambiente

Vice-governador Wanderlei Barbosa reforça compromisso do Tocantins com a preservação de seus biomas

As ações foram destacadas no I Encontro Internacional de Governadores pelo Clima


Meio Ambiente

Naturatins autua BRK Ambiental em mais de 8 milhões de reais por poluição ambiental


Região Central

Em Lajeado, Polícia Civil prende em flagrante suspeitos de roubo e estupro


22º BI

22º Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro comemora 25 anos de criação


Aleto

CCJ da Assembleia Legislativa analisa projetos para pandemia


Aleto

Projeto de Lei do deputado Valdemar Júnior cria Semana Estadual de Conscientização, proteção e orientação sobre a Síndrome de Rett


GT

Grupo de Trabalho-Terminais debate projeto de Concessão dos Terminais Rodoviários do Estado



  Blogs & Colunas



Entre nós

Virgínia Gama


Arquitetura & Design

Riquinelson Luz


Vida Plena

Valquiria Moreira


As Tocantinas

Célio Pedreira