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OPINIÃO


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Chile - 11 de Setembro de 1973: Quarenta anos do início de uma dolorosa tragédia no Cone Sul

18 Jan 2013

Por José Romero Araújo Cardoso
 
Manhã de onze de setembro de 1973. Santiago, capital chilena, amanhecia sob tênue chuva. O Presidente Salvador Allende adentrava o Palácio La Moneda intuindo cumprir suas obrigações como chefe do executivo nacional.

No entanto, o Presidente Constitucional Chileno não sabia que o Ministro da Guerra e a cúpula da Segurança Nacional haviam fomentado articulação, há tempos imemoriais, com a CIA, visando depô-lo. Corajoso e determinado, o médico e maçom que pensara em uma transição pacífica para o socialismo tinha mexido com interesses graúdos de grandes empresas transnacionais do ramo de mineração, sobretudo as que atuavam na exploração das riquíssimas reservas de cobre localizadas ao norte do País.    Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas e entregando-as aos camponeses.

Salvador Allende conseguira no Congresso, apoiado na coalização formada pela esquerda e partidos progressistas chilenos, denominada de Unidade Popular, anos antes, a nacionalização de verdadeiros impérios empresariais norte-americanos. O Chile tornara-se, ao lado de Cuba, um dos paraísos daqueles idealistas que acreditavam em novos rumos para a América Latina subjugada pelo imperialismo ianque.

A aproximação com a ilha insurrecta era tão proeminente que Fidel Castro chegou a passar meses no Chile, pois encantado com a experiência desencadeada neste País sul-americano, tomou-o como referência para a região, enquanto sinônimo de luta pela liberdade.

O ódio imperialista demonstrou toda sua intensidade quando o General Augusto Pinochet ordenou que suas tropas marchassem sobre o Palácio Presidencial. Aviões norte-americanos apoiaram o avanço militar quando da deflagração daquele que se tornaria um dos mais sangrentos golpes de estado já consolidado em toda a América Latina.

Tímida comparação encontra-se na violenta deposição do governo Arbenz, na década de cinqüenta, na Guatemala. Na relação dos que seriam fuzilados encontrava-se Ernesto Guevara de La Serna, mais tarde imortalizado pelo apelido de “Che”.

Allende resistiu bravamente, empunhando fuzil presenteado por Fidel quando da histórica visita ao Chile. No entanto, a desigual disponibilidade de homens e armas o fez tombar sem vida.

O Chile, em razão dos ares pretensamente libertários, imortalizado no imaginário lúdico de centenas de guerrilheiros latino-americanos, expulsos ou fugidos dos seus países, era tido como porto seguro pela esquerda radical. Inúmeros militantes da luta armada no Brasil, como Fernando Gabeira, trocado pelo embaixador suíço quando do seqüestro e negociação efetivados pelo grupo liderado pelo capitão Lamarca, buscaram refúgio no Chile de Allende.

A chacina nas ruas de Santiago marcou consideravelmente o advento da extrema truculência dos militares chilenos que depuseram o presidente chileno.

Pessoas ligadas ao governo que estava sendo deposto, bem como os esquerdistas que buscaram exílio no Chile, foram literalmente cassados, assassinados friamente, torturados, aterrorizados pela violência inaudita que se instalou na “ilha de esperança” do Cone Sul.

Os EUA transmitiram ordens incisivas para que as Embaixadas dos “Países Aliados” fechassem as portas para os seres humanos que estavam sendo massacrados no Chile. A Suécia desobedeceu as instruções vindas de Washington e transformou seu espaço de representação diplomática em tábua de salvação para inúmeras perseguidos.

Se não fosse a ousadia e o humanismo do primeiro-ministro Olaf Palm, um dos mentores do Welfare State (Estado do bem estar Social) a criminosa caçada no Chile teria tomado proporções ainda mais perversa e devastadora. Muitos que foram perseguidos e conseguiram asilo na Embaixada Sueca choraram quando do assassinato do grande político daquele País Nórdico. Exilado na Suécia, Fernando Gabeira, um dos idealizadores do seqüestro do Embaixador Norte-Americano Charles Elbrick, salvou-se graças à decisão de Palm em abrigar o máximo de pessoas possível na Embaixada Sueca.  

O Estádio Nacional, palco de históricas partidas de futebol, com destaque às disputadas na copa de 1962, foi transformado em campo de concentração para centenas de pessoas aprisionadas pelos militares rebelados contra o governo Allende.

A ordem era não expressar sentimentos ou brados de revolta, mas o cantor e compositor Victor Jara desobedeceu-a, sendo vítima da ira ensandecida dos golpistas. Assassinaram-no com requintes de perversidade.

Victor Jara era a maior expressão da música de protesto no Chile, considerado o Chico Buarque daquele país sul-americano. As canções que compôs ou interpretou destacaram-se pelo engajamento político e posicionamento em prol dos oprimidos. A antológica homenagem ao Comandante “Che” Guevara tem letra de Victor Jara (Aprendimos a quererte, desde la histórica altura, donde el sol de tu bravura,le puso cerco a la muerte. Aquí se queda la clara, la entrañable transparencia, de tu querida presencia, Comandante Che Guevara. ). 

Personalidades respeitadas no mundo cultural, como o poeta Pablo Neruda, empreenderam fuga desesperada, atravessando a Cordilheira dos Andes. A residência do consagrado poeta chileno foi profanada pelos militares tresloucados com as ordens recebidas dos superiores, cujo destaque estava na efetiva inserção do Chile na execrável “Operação Condor”.

Violeta Parra, grande nome da música chilena, cuja obra-prima encontra-se em “Gracias a La vida”, mesmo falecida em cinco de fevereiro de 1967, teve suas canções proibidas, pois sinônimo de luta contra a opressão era vista como símbolo das batalhas contra a exploração que tanto marcou o governo Allende.

Mesmo longe, depois da consolidação do sangrento golpe de Estado, pessoas ligadas ao governo deposto foram assassinadas. Exemplo disso encontra-se na morte trágica de Orlando Letelier, nos EUA, juntamente com sua assistente, Ronni Muffet, em Washington, D.C. por agentes secretos da DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), a polícia política do regime militar chileno.

Em onze de setembro de 1973 o terror tomou conta do Chile, pois a violência tornou-se marca indelével da ação dos militares que, agindo assim, assumiram compromisso irrevogável com o neoliberalismo e com a idéia de dominação veiculada pela ideologia americana com relação à América Latina.
 
José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN.     

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