Thursday, 18 de July de 2019

OPINIÃO


Ciência & Tecnologia

Gerente de Planejamento

20 Apr 2018    14:47
Gerente de Planejamento

Algumas organizações de ciência e tecnologia ainda insistem em manter em suas estruturas organizacionais a posição de gestores de planejamento em nível operacional. Outras, como é o caso dos institutos federais, insistem na manutenção dessa posição em nível de diretoria de campus e da pró-reitoria de desenvolvimento institucional. Essas instituições ainda não perceberam ou desconhecem que a o planejamento é uma função do processo gerencial, assim como a organização, direção e controle, o que implica em dizer que, sendo uma parte do processo gerencial, todas as unidades organizacionais precisam fazê-lo. Dito de outra forma, o planejamento é o que faz cada uma das unidades organizacionais funcionar. E, por essa razão, não é necessário que haja uma unidade organizacional apenas para fazer os planos das outras unidades. Este artigo tem como objetivo mostrar por que a posição de gerente de planejamento no nível operacional é desnecessária.

Tem certas coisas que todo profissional precisa fazer para que o seu trabalho renda os frutos que dele se espera. O marceneiro e o carpinteiro precisam saber utilizar seus equipamentos de trabalho, como a serra para cortar a madeira e o martelo e a cola, para acoplar as madeiras umas às outras. O médico precisa saber utilizar o estetoscópio e a ler radiografias, pois é com o auxílio desses equipamentos que poderá fazer diagnósticos mais precisos acerca da saúde de seus pacientes. O pescador precisa saber manusear as redes de pesca e a identificar sinais nos rios e mares que indiquem a presença de peixes. Há, portanto, conhecimentos e habilidades que são específicas de cada afazer.

As organizações também são da mesma forma. Há coisas que elas precisam saber e saber fazer. Essas coisas são específicas de cada tipo de organização. Nas organizações de ciência e tecnologia, ensino, pesquisa e extensão são três coisas que elas precisam saber fazer, se elas decidirem que vão fazê-las. Algumas dessas organizações decidem que só vão trabalhar com ensino; outras, que só vão fazer pesquisas; terceiras há que se comprometem a fazer mais de uma dessas coisas. Não importa: o que decidirem fazer, terão que criar grupos de pessoas especializadas em ensino, se forem ensinar; em pesquisa, se forem pesquisar; ou em mais de uma dessas funções, caso decidam neste sentido. A cada grupamento diferente de pessoas especializadas terão que fazer corresponder um líder deles, formal ou informalmente. É isso o que o seu organograma vai representar e o seu regimento vai definir.

Também não importa: seja o pedreiro, carpinteiro, médico, engenheiro, organizações de ciência e tecnologia, governos, famílias, grupos de moradores, enfim, todo tipo de profissional e de organização precisa se planejar. O carpinteiro planeja suas atividades diárias, semanais, mensais etc., da mesma forma que o médico, da mesma forma que ele organiza seu trabalho, as pessoas que vão trabalhar com ele, a sua produção, o espaço físico onde vai trabalhar e o uso dos recursos disponíveis para o seu trabalho. E não é só isso.

Cada profissional, servidor e todo tipo de organização precisa ter uma forma de lidar com as pessoas, tanto para que elas façam o que precisa ser feito, quanto para que elas continuem com a vontade de trabalhar. E não é só isso: todos esses profissionais e organizações precisam saber o padrão de seu trabalho, medir a sua produção, avaliar se ela está de acordo com o padrão e refazer o trabalho todas as vezes que o que foi previsto não foi realizado. Todo mundo precisa fazer isso, organizações e profissionais.

Planejar (dizer o que tem que ser feito e como fazer), organizar (as pessoas, o trabalho, a produção, o espaço físico, os insumos e a infraestrutura), dirigir (motivar, liderar e comunicar) e dirigir (padronizar, mensurar, avaliar e replanejar-refazer) é intransferível. Isso quer dizer que um profissional não pode abdicar do seu direito de definir o que vai produzir e como produzir porque não vai conseguir fazer o que seus clientes querem. É como se se encontrasse alguém casualmente na rua, esse alguém dissesse “carpinteiro, faça uma mesa de um lugar para o seu cliente José da Silva” e essa ordem fosse obedecida. Quando chegasse para a entrega do produto para o cliente, ele dissesse “não foi isso o que eu pedi. Aliás, eu nem pedi nada para você!”. Planejamento exige negociação. E negociação não pode ser feito sem os atores diretos envolvido no pedido e na produção.

Imagine-se uma posição de planejamento no nível operacional de uma faculdade. Como toda unidade organizacional é um sistema de produção, uma gerência de departamento no nível operacional quer dizer que essa gerência vai fazer os planos de todas as unidades do seu nível gerencial. Na prática, essa gerência de planejamento teria que fazer os planos pedagógicos de todos os cursos da faculdade e não o colegiado do curso junto com o Núcleo Docente Estruturante; teria que fazer todos os planos semestrais de trabalho e não os professores e coordenadores de curso; teria que fazer o plano de uso de todos os laboratórios e equipamentos da instituição e não os técnicos e pessoal de apoio; e assim por diante! Isso sem falar que teria que fazer todos os planos das unidades não acadêmicas, como os planos financeiros, fluxo de caixa, fluxo de fundos, previsão de férias dos servidores, dentre inúmeros outros afazeres.

Planejamento é função, não posição. Função significa ter que fazer para que a unidade organizacional funcione. É por isso que se fala em processo gerencial: um sequenciamento lógico de etapas que precisa ser colocado em prática para que cada unidade organizacional funcione. E o sequenciamento lógico é este: planejar, organizar, dirigir e controlar. Como é sequencialmente lógico, não se pode alterar a ordem, ou seja, não é possível primeiro organizar para depois controlar. Não funciona. O planejamento é sempre primeira etapa, organização é a segunda, direção é a terceira e controle a quarta. Se mudar a ordem, o processo fica comprometido e incompreensível. A função planejamento, como as demais, é um imperativo: a unidade que não o fizer, não funcionará adequadamente. Isso, se funcionar.


*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD

Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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