Thursday, 21 de November de 2019

OPINIÃO


Opinião

O homem e a sua "alma"

27 Jan 2013

José João Neves Barbosa Vicente
 
Todo o homem, grande ou pequeno, rico ou pobre, alto ou baixo, caminha-se inevitavelmente para essa hora em que a vida cessa, voltando o corpo ao pó.

Para os olhos, esta experiência universal chamada morte, representa o ponto final, a conclusão. O corpo, abandonado a si mesmo, desintegra-se e desaparece e, com o tempo, não deixará traço algum da sua existência. É o que tem sido desde que a vida apareceu na terra; vida que, por sinal, é curta, pois logo se esvai: o homem nasce, cresce, luta, sonha, traça planos e constrói para entregar-se à morte.

Mas, de um modo geral, o homem nunca se contentou em deixar a questão nesse ponto. Ao longo da sua história, insistiu na ideia de que a morte não pode ser o fim. Milhões de criaturas acreditaram em todas as eras, que aquilo que é mais verdadeiro no homem persiste, em certa forma ou estado, depois da morte. O começo da crença na alma humana surgiu com os homens primitivos. Acreditavam haver neles algo que podia libertar-se do corpo e viver vida própria, pois sonhavam que vagueavam por toda parte, caçavam, pescavam, passavam por muitas aventuras e perigos, ao despertarem, seus amigos asseguravam-lhes que não tinham saído da caverna ou tenda.

Gradativamente, o homem foi formando a crença na alma como algo distinto e anterior ao corpo, e na sua libertação e imortalidade depois da destruição do corpo pela morte. Alguns chegaram, inclusive, a formar crença cuja defesa a ponta para a possibilidade da alma deixar o corpo por ocasião da morte deste, para entrar em outro e continuar a viver. Isto é, ao invés de deixar o corpo e ir para algum lugar a ela reservado, ou ser destruída com o corpo, a alma,segundo essa crença, emigra, muda de lugar, passando de um corpo para outro quando sua atual morada não é mais habitável. Outros defenderam que a alma se encontra onde quer que haja vida e, uma vez que em toda parte são encontrados sinais de vida, a alma deve estar em toda natureza, mas a alma humana tem o poder de pensar em termos de conceitos e acerca da natureza interior das coisas.

Para os primeiros pensadores cristãos, por exemplo, os apologistas, a alma é imortal, porém continua a viver num corpo ressuscitado. A morte, de acordo com esses pensadores, não significa a alma separa-se do corpo, mas purificação do corpo para que fosse um lugar conveniente para a alma habitar durante toda a eternidade. Para Santo Agostinho, o homem é união da alma ao corpo, este é a prisão da alma, a fonte de todos os males. A alma, segundo Agostinho, é imortal, contudo, sua vida, depois da morte do corpo, pode ser feliz ou amargurada, conforme a maneira que o indivíduo viveu durante a existência terrena. Para o escolástico S. Tomás de Aquino, a alma foi criada por Deus, ela é o princípio imaterial, espiritual e vital do corpo. Essa alma espiritual é agregad a ao corpo por ocasião do nascimento, mas, necessariamente, não depende do corpo para sua existência ou função; pode continuar a agir depois dele ter perecido: continua a existir como existiu durante a vida do corpo. Por si própria, forma um novo corpo espiritual por meio do qual atua por toda a eternidade.

O pensamento moderno, de um modo geral, abandonou a concepção sobre a alma e a imortalidade. A palavra alma é raramente mencionada, e quase não se admite a palavra imortalidade. Pois, os métodos empregados não conduzem à alma, tampouco à crença na imortalidade. No pensamento moderno, portanto, não existe base para a crença, a doutrina da alma é considerada prejudicial, pois ela traz consigo uma carga de tradições que oprime o homem e o faz renunciar, completamente, à ideia de compreender as experiências que tenham sabor religioso. As antigas e tradicionais crenças de que existe o dualismo corpo e alma, ambos com vidas mais ou menos separadas, que a alma pode continuar a viver e funcionar depois que o corpo desaparecer, já foram quase inteiramente abandonadas pelo pensamento moderno. Em lugar dessas crenç as colocou-se o homem cujo pensamento é uma atividade própria da mente, a mente com a qual ele pensa não é distinta do corpo. Um ser capaz de conceber o mundo na esfera de seu pensamento e traçar planos inauditos para dominá-lo e transformá-lo de acordo com seus desejos. Não há coisa ou entidade que corresponde à alma, logo não se pode afirmar a imortalidade de tal coisa ou entidade, e nem um lugar para onde vai depois da morte do corpo. Não havendo alma, não pode existir região de recompensa e castigo como ensinaram e ensinam quase todas as religiões. A compreensão do homem se dá no intervalo entre o nascimento e o túmulo.

 


Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Editor da GRIOT – Revista de Filosofia.

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