Saturday, 24 de February de 2018

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OPINIÃO


Ciência e Tecnologia

Suprimento de necessidades e inovação

31 Mar 2017

Regra geral, as organizações de ciência e tecnologia nacionais não conseguem suprir as necessidades de seus clientes e usuários e não conseguem inovar; regra especial, as exceções, as que cumprem seu papel científico e tecnológico, conseguem se posicionar como referências nacionais. Por que isso acontece? Por que há tanto isomorfismo negativo entre essas organizações na realidade brasileira? A resposta é simples: não conseguem aplicar a si mesmas os procedimentos de marketing. Geralmente, nossas organizações confundem marketing com propaganda, e o resultado é o a que se assiste hoje: a normalização da baixa qualidade de ensino e ausência de inovação. Esse artigo tem como objetivo mostrar que a não aplicação dos procedimentos e ferramentas de marketing tem contribuído para o descumprimento das missões das organizações de ciência e tecnologia.

Quem lê as missões das organizações de ciência e tecnologia nacionais fica surpreso com a magnanimidade de seus desafios ali contidos. Se forem observados em conjunto, esses dizeres parecem sugerir que o Brasil é o paraíso da qualidade de formação profissional e da inovação. No entanto, quem conhece a forma através da qual essas organizações são geridas e os resultados que apresentam (apenas quando são obrigadas, o que contraria os princípio de gestão) vê-se ante um dilema: será que quem escreveu aquela missão sabia o que estava dizendo ou aquela missão foi escrita para enganar quem as lê? A razão disso é que a nobreza do slogan é contradito com as práticas cotidianas que se observa em cada uma delas, com raríssimas exceções.

A contradição é decorrente do fato de os gestores de organizações de ciência e tecnologia desconhecerem completamente o marketing como área especializada de gestão. Eles desconhecem o fato de que todas as áreas especializadas precisam ser aplicadas. Não sabem que cada área especializada da ciência da Administração é necessária ser aplicada para compor o mosaico gerencial, à semelhança do que acontece em uma orquestra: o grupo de cordas é uma área especializada, assim como os metais, os tambores, os instrumentos de sopro e assim por diante. É a convergência dos sons desses grupos que produz a beleza da música. Da mesma forma, é a convergência dos esforços das áreas especializadas da gestão (finanças, recursos humanos, produção, marketing etc.) que produz o sucesso gerencial. Sem isso, não há gestão, mas amadorismo.

A responsabilidade do marketing é com a identificação e suprimento de necessidades. Tudo começa e termina com o marketing. Os profissionais de marketing são especialistas em entregar aos usuários e clientes o que eles precisam, em conformidade com suas exigências e, no final, garantir sua satisfação. Mas não é isso o que acontece no gerenciamento das organizações de ciência e tecnologia. Essas organizações, como o próprio nome sugere, deveriam estar voltadas para o suprimento de necessidades de inovações em conhecimentos (ciência) e soluções (técnicas e tecnologias). Mas, o que elas fazem de verdade? Elas tentam imitar o que suas concorrentes fazem. E imitam, quase sempre, de forma pior. Apenas raramente imitam de forma similar, o que garante a mediocridade.

Para a criação de um curso, por exemplo, por incapacidade e preguiça somados, os membros de comissões para tal procuram na internet cursos similares e imitam. Imitam praticamente tudo. Não conseguem raciocinar o diferencial geográfico e ambiental, não dominam os conhecimentos da área para escolher o que é atual, robusto e aplicável, desconhecem formas de organização de sistemas de operações de ensino, dentre inúmeros outros conhecimentos e habilidades capazes de fazer o marketing funcionar. Marketing, sim, porque esses profissionais atuam em conjunto com os grupos de operações/produção e finanças. No final, o que surgirá é um curso, no máximo, parecido com outros que existem. E onde está a inovação?

Os gestores das organizações de ciência e tecnologia, quase sempre, não sabem o que é inovação. Não percebem que inovação está relacionada com o suprimento de necessidades e o sucesso desse suprimento. Mais ainda, que quando os concorrentes conseguem sucesso, a organização que com eles queiram competir tem que garantir padrões superiores de valores. E, para isso, precisam inventar. Inventar, portanto, é a parte mais desafiadora das organizações de ciência e tecnologia. Apesar da invenção poder nascer da análise do que se tem atualmente (engenharia reversa), seu poder reside com mais plenitude na geração do que não existe, na criação da novidade. Muitos consideram que apenas neste momento é que se tem a verdadeira inovação. E podem, realmente, estar completamente corretos.

A realidade das organizações de ciência e tecnologia também é inusitada. Grosso modo, vivem rodeadas de ambientes em que a carência de inovação e de necessidades é extremamente alta. Apesar disso, como agem? Agem como se desconhecessem completamente essas necessidades. E, mais do que isso, com profunda indiferença ao que existe ao seu redor. Essas organizações não dialogam com o ambiente externo a não ser para suprir suas próprias necessidades, numa forma de parasitismo maligno. Por exemplo, procuram as indústrias e comércio de sua região apenas para conseguir estágio para seus alunos. Mais nada.

Já é hora de mudar a forma de gerenciamento das organizações de ciência e tecnologia exigindo que seus gestores tenham formação mínima em gestão. Que se conheça o processo gerencial e a lógica das áreas especializadas de Administração. Se não quiserem ter esse conhecimento todo, que se conheça pelo menos marketing, finanças e produção/operações. É claro que não vão conseguir fazer gestão com apenas esses conhecimentos (faltaria conhecer o processo gerencial para saber fazer funcionar essas áreas), mas vão conseguir evitar as muitas e grosseiras barbeiragens a que se assiste todos os dias.


*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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