Palmas, 23/01/2018

Opini√£o

Ciência e Tecnologia

Aspectos Centrais sobre TI: na pesquisa - parte 3

  • Por Daniel Nascimento-e-Silva*
Aspectos Centrais sobre TI: na pesquisa - parte 3


As atividades de pesquisa cient√≠fica, de forma geral, s√£o o manuseio de conhecimentos cient√≠ficos (ou do senso comum), m√°quinas,  equipamentos e insumos para a gera√ß√£o de novos conhecimentos ou de algum artefato. No caso das pesquisas cient√≠ficas, os resultados a serem objetivos, com as devidas observa√ß√Ķes, s√£o novos conhecimentos cient√≠ficos ou algum produto, f√≠sico ou extra-f√≠sico. Isso quer dizer que, na atualidade, muitos poucos cientistas e pesquisadores realizam suas investiga√ß√Ķes sem m√°quinas ou equipamentos para manusear conhecimentos e insumos em busca dos resultados pretendidos. Mais ainda, os conhecimentos cient√≠ficos e produtos tecnol√≥gicos mais avan√ßados pretendidos exigem dos pesquisadores e cientistas habilidades para lidar com conhecimentos, m√°quinas e equipamentos tamb√©m mais avan√ßados. Para resumir: hoje, praticamente ningu√©m faz ci√™ncia de qualidade sem o aux√≠lio da tecnologia da informa√ß√£o (TI). Este artigo tem como objetivo mostrar o papel da TI nas atividades de pesquisas nas organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia.

Quem olha um remédio na prateleira de alguma farmácia nem desconfia o quão longo foi o caminho que aquele produto passou desde a primeira concepção do projeto de pesquisa até o controle atual do grau de eficácia e eficiência do seu princípio ativo. Da mesma forma, quem manuseia um computador não tem a mínima ideia do emaranhado de atividades e protocolos que tiveram que ser seguidos para que aquele produto estivesse à sua disposição. Pois é, sem o pessoal da tecnologia da informação, não há pesquisa consequente, de primeira linha.

As organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia nacionais de primeira grandeza tem nos profissionais de TI a condi√ß√£o essencial para que se mantenham no padr√£o de excel√™ncia que conquistaram com muito esfor√ßo. Esses profissionais s√£o respons√°veis, por exemplo, desde a escolha dos softwares mais adequados para o tratamento estat√≠stico de pesquisas de opini√Ķes at√© o controle de rob√īs que mant√™m a precis√£o na dosagem de componentes de drogas ainda sob estudo. Os cientistas sabem do que precisam, do que eles pretendem fazer. Sabem, por exemplo, que √© necess√°rio fazer an√°lise de regress√£o log√≠stica combinada com an√°lise multidimensional, mas desconhecem que sistema √© capaz de fazer isso e que m√°quinas e equipamentos s√£o necess√°rios para que o seu objetivo possa ser alcan√ßado. √Č a√≠ que entra o pessoal de TI como supridores de necessidades.

Lembro de um desafio de um grupo de pesquisadores de uma universidade brasileira e outra europ√©ia, sobre como alcan√ßar os objetivos de suas investiga√ß√Ķes, cujo problema passava pelo tr√°fego e minera√ß√£o de dados. Ao ser acionado para auxiliar na resolu√ß√£o do problema, o pessoal de TI esquematizou desde a constru√ß√£o da rede e aspectos f√≠sicos dos pr√©dios at√© a escolha dos softwares que controlariam cada etapa, processos e produtos de todos os projetos de pesquisas daquela equipe durante os dez anos de execu√ß√£o. E isso tudo sem fazer parte das equipes e sem exclusividade para elas.

Nas organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia √© necess√°rio o aux√≠lio da TI n√£o apenas para a elabora√ß√£o dos projetos e sua execu√ß√£o. As necessidades tamb√©m est√£o na gest√£o dos projetos, nas interfaces de troca de informa√ß√Ķes entre um projeto e o financiador, entre a equipe de pesquisa e as institui√ß√Ķes de registro de patentes, entre o pesquisador e os peri√≥dicos e editoras, dentre in√ļmeros outros.

O que queremos mostrar e o pessoal de TI precisa entender que eles fazem parte de um desafio institucional de suprimento de necessidades do ambiente externo. E, no caso da pesquisa, o ambiente externo combinou ou requereu a entrega de conhecimentos científicos ou produtos de base científica e precisa que esses produtos requeridos lhes sejam entregues. Ainda que o pessoal de produção de conhecimentos e produtos científicos da instituição sejam capazes de honrar os compromissos assumidos, com a ajuda da TI esses suprimentos poderão se dar com mais eficiência (mais bem feito e mais rápido) e com mais eficácia (alcançar os objetivos por todos pretendidos). Para isso, o pessoal de TI precisa mergulhar no cotidiano do pessoal de pesquisa para que possam conhecer com precisão suas necessidades específicas e supri-las.

Uma equipe de pesquisa de uma institui√ß√£o p√ļblica federal estava com s√©rias dificuldades para entregar os resultados de suas investiga√ß√Ķes para o √≥rg√£o financiador porque um sistema n√£o estava gerando os resultados com precis√£o. A equipe de TI, que desconhecia at√© os pesquisadores, estudou o caso e revelou que o sistema funcionava e que o que estava causando a imprecis√£o eram os ajustes em rela√ß√£o aos outros sistemas, que, digamos, estavam descalibrados. A a√ß√£o deles foi determinante at√© para substituir dois dos sistemas que estavam sendo usados, para surpresa geral dos experientes pesquisadores da equipe, que imaginavam conhecer bem os sistemas isoladamente e em rede. O pessoal de TI, que nunca ouvira falar dos sistemas, m√°quinas e equipamentos que estavam com problemas, em menos de tr√™s dias dominou todos eles e encontrou os substitutos mais eficientes para resolver o problema. Esse foi mais um das v√°rias centenas de casos de TI funcionando como auxiliares efetivos nas atividades de pesquisa.

O mundo moderno √© o dom√≠nio das TI. E as organiza√ß√Ķes de ci√™ncia e tecnologia s√£o tanto o local privilegiado na gera√ß√£o e no uso dessas tecnologias. Ora, se o que fazemos ali precisa o tempo todo de TI, por que raz√£o o pessoal de TI n√£o se envolve no aux√≠lio ao suprimento dessas necessidades? Fazer TI est√° muito longe, hoje, de preocupa√ß√£o com aspectos f√≠sicos dos trabalhos desse pessoal, o que n√£o quer dizer que isso n√£o seja importante. √Č importante, mas n√£o √© essencial, no sentido de comprometer completamente o alcance dos resultados institucionais. N√£o saber agir como suporte √†s atividades-fim √©, talvez, o grande impeditivo de fazer as atividades de pesquisa ganharem a relev√Ęncia que precisam ter.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD
Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)


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