Palmas, 18/08/2017

Opini√£o

Bíblia

Deus e o sofrimento

  • Por Ricardo Gondim*
Deus e o sofrimento


A narrativa b√≠blica reconhece o sofrimento humano como grosseiro, b√°rbaro, cruel. Em seus dois testamentos, epis√≥dios comuns  procuram descrever trai√ß√£o, alheamento, tolice e maldade como respons√°veis por dores, ang√ļstias, perplexidades.

Nos textos do Pentateuco, sofrimento tem a ver com b√™n√ß√£o e maldi√ß√£o; e elas dependem fundamentalmente do cumprimento da lei. 
Deuteron√īmio 28 √© central, pois atrela √† obedi√™ncia da lei toda esp√©cie de b√™n√ß√£o; como tamb√©m afirma que males diversos vir√£o caso os mandamentos sejam descumpridos.

Se algum judeu quisesse viver sem grandes problemas que cuidasse, ent√£o, de observar os pormenores m√≠nimos da Tor√°. Obviamente, a garantia de que obedecer traria uma vida segura, n√£o se sustentou. No Salmo 44 o escritor briga com Deus. Ele diz que o Senhor vendeu o seu povo por uma ninharia e nada lucrou com isso. Alega ainda: Israel vinha cumprindo a lei, mas n√£o adiantou nada: Tudo isso aconteceu conosco, sem que nos tiv√©ssemos esquecido de ti, nem tiv√©ssemos tra√≠do a tua alian√ßa. Nossos cora√ß√Ķes n√£o voltaram atr√°s, nem os nossos p√©s se desviaram da tua vereda. Todavia, tu nos esmagaste e fizeste de n√≥s um covil de chacais e de densas trevas nos cobriste. [17-19].

Ap√≥s o ex√≠lio babil√īnico, v√°rias teorias se espalharam em busca de explicar os motivos pelos quais Deus abandonou Israel nas m√£os de seus inimigos. A menina dos olhos de Deus n√£o podia ficar √† merc√™ de povos id√≥latras. O livro de J√≥ foi escrito nesse per√≠odo como uma tentativa de compreender porque o justo sofre; √© uma poesia em que as pessoas erram por tentarem entender as decis√Ķes de Deus. A mulher de J√≥, seus amigos e o pr√≥prio personagem buscam respostas, mas acabam sem alcan√ßar as raz√Ķes de Iav√©. Por que ele age t√£o sem crit√©rios na distribui√ß√£o dos seus favores e castigos? O justo, temente a Deus, sofre. Seus filhos morrem sem que ningu√©m saiba ao certo os motivos. Por que o Senhor de toda cria√ß√£o apostaria com o advers√°rio? Por que os filhos padecem na trama em que o pai est√° envolvido? Eles n√£o eram a descend√™ncia de um justo?

Jó não se aquieta. Rebela-se, esperneia contra a sorte e depois de expor sua revolta, ouve Deus alongar um discurso, mas sem razoabilidade. Os porquês dos atos divinos continuam ilógicos.

Depois -ou simultaneamente ‚Äď desse livro po√©tico, come√ßaram circular os textos que comporiam o livro do Eclesiastes; uma obra mais na linha sapiencial.

O Eclesiastes √© pessimista; consequentemente, um texto fatalista. Em diversas ocasi√Ķes seus autores (biblistas consideram que o Eclesiastes √© colet√Ęnea de textos e n√£o a produ√ß√£o de uma s√≥ pessoa) se parecem precursores do niilismo moderno:

Refleti nisso tudo e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, e aquilo que eles fazem, estão nas mãos de Deus. O que os espera, se amor ou ódio, ninguém sabe. Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los. Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: O destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos [9:1-3].
Para o Eclesiastes a vida é absurda. Deus não capitaneia os eventos já que a existência não distingue os bons cumpridores da Torá, dos ímpios.

Essas tr√™s respostas ‚Äď obedi√™ncia da Tor√°, J√≥ e Eclesiastes ‚Äď podem ser consideradas esfor√ßos primitivos do que mais tarde Leibniz chamaria de teodiceia ‚Äď a tentativa filos√≥fica de responder ao impasse de "se Deus √© bom e todo poderoso e n√£o acaba com o sofrimento, ent√£o ele n√£o √© bom, ou n√£o √© todo poderoso".

Depois de s√©culos, o sofrimento humano continua um mist√©rio ‚Äď sobretudo das crian√ßas. Desde os textos mais primitivos, explica√ß√£o alguma teve for√ßa de calar o lamento dos judeus. Ao olharem em retrospectiva as monumentais trag√©dias de pessoas, fam√≠lias e gera√ß√Ķes, eles nunca se aquietaram. Da√≠ Auschwitz representar um marco decisivo na espiritualidade judaica. Diz-se que depois dos fornos de crema√ß√£o, concep√ß√Ķes sobre Deus precisam ser revistas. Desde o ex√≠lio babil√īnico, passando pelos pogroms da Idade M√©dia e por fim o holocausto nazista, n√£o era mais poss√≠vel pensar em Deus como um maquinista que insiste em pilotar o trem da hist√≥ria. Como continuar a imaginar Deus, querendo ‚Äď ou permitindo ‚Äď o holocausto?

Creio na necessidade de evitar pelo menos duas posturas diante do mal.

1. N√£o podemos fugir. Colocar o sofrimento na conta dos mist√©rios insond√°veis da divindade, n√£o resolve. Quando nos vemos em acidentes tr√°gicos [aleat√≥rios], evitar a realidade parece ser um consolo. Dizer que infort√ļnios s√£o mist√©rios, e que a melhor resposta √© resignar-se, acaba cobrando um pre√ßo alto anos depois. F√© n√£o significa aceitar o inaceit√°vel. Em muitos casos, o sofrimento nos vem como resultado da a√ß√£o de pessoas, governos e sistemas perversos. A passividade de afirmar que Deus tem seus motivos, pode perpetuar a maldade. Demolir sistemas que promovem a morte requer ousadia. J√≥ ensina e indagar e a resistir, internamente, o sofrimento. Algu√©m j√° me provocou: "De onde vem sua petul√Ęncia de querer repensar o que a teologia j√° sistematizou? N√£o me considero petulante. Creio, apenas, que n√£o √© pecado enfrentar o que dava uma falsa sensa√ß√£o de seguran√ßa. Nossas convic√ß√Ķes devem ser testadas, exatamente, na dor. F√© suporta questionamentos dif√≠ceis. Se alguma certeza n√£o se sustentar diante do feroz inquiridor, talvez ela n√£o mere√ßa continuar. Perguntas podem suscitar novas perguntas e com elas, mais d√ļvida. A d√ļvida fortalece a f√©. Mesmo que continuemos sem respostas definitivas, vale aprofundar nossas ang√ļstias. Leibniz afirmava que a percep√ß√£o de um Deus que encobre seus atos, o torna pior do que Cal√≠gula. O imperador romano escrevia suas leis em letras min√ļsculas e mandava public√°-las em lugares t√£o altos que ningu√©m as conseguisse ler.

2. N√£o podemos tentar camuflar nossas d√ļvidas com frases piedosas. Repetidas vezes o debate sobre o sofrimento humano se esvazia antes que se consiga expor os conte√ļdos que nos inquietam. Alguns t√™m medo de magoar Deus e se encolhem. Outros evitam brigar por temerem que a indaga√ß√£o mais aguda os far√° apostatar da f√©. As verdades continuam, assim, estabelecidas por mero sentimentalismo. Essa piedade tamb√©m pode acalmar diante da dor, mas ferver√° por anos at√© explodir como √≥dio contra Deus.

Jesus, ciente dos primitivos arranjos teol√≥gicos do juda√≠smo, descartou a l√≥gica de que s√≥ os obedientes eram aben√ßoados. Ele admitiu que bons e maus s√£o alvos do amor de Deus. Ele tamb√©m advertiu os disc√≠pulos sobre tribula√ß√Ķes, persegui√ß√Ķes e trai√ß√Ķes. Se l√≠rios e pardais lembravam o cuidado de Deus, guerras e fome n√£o deixariam esquecer o tamanho da iniquidade humana. Ele mostrou Deus n√£o como o castigador celestial, mas como nosso amigo. Com ele aprendemos que viver √© ao mesmo tempo magn√≠fico e perigoso.
 
 

Soli Deo Gloria
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*Ricardo Gondim √© escritor e te√≥logo,  presidente  da Conven√ß√£o Betesda Brasil. E-mail: ricardogondin2@gmail.com


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