Palmas, 28/06/2017

Opini√£o

Brasil

Tecnologia x Empregos

  • *Por Fernando Pinho
Tecnologia x Empregos


Diante da mais forte turbul√™ncia econ√īmica e pol√≠tica j√° ocorrida no Brasil, tenta-se aprovar uma das mais importantes reformas, a trabalhista. O uso da carcomida Legisla√ß√£o Trabalhista, datada dos anos 40, arrasta-se at√© a atualidade, como um fantasma que assombra a na√ß√£o brasileira, produzindo o que h√° de pior em termos de custos financeiros e intermin√°veis lit√≠gios entre patr√Ķes e empregados, numa luta onde n√£o h√° ganhadores, s√≥ perdedores. E o maior √© o nosso Pa√≠s. 

Os tempos mudaram, mas existe um ran√ßo ideol√≥gico que ainda sustenta a fal√°cia de que o Estado deve interferir em tudo, mesmo sendo incompetente e corrupto. Nesse aspecto, n√£o seria por demais lembrar que, o rec√©m-lan√ßado Relat√≥rio Global de Competitividade Mundial situa o Brasil na posi√ß√£o 62 no Ranking de Corrup√ß√£o, o pen√ļltimo lugar, s√≥ perdendo para a Venezuela. Portanto, somos classificados como o segundo pa√≠s mais corrupto do mundo.

O objetivo desse dogma √© manter ultrapassadas estruturas de poder, que s√≥ sobrevivem √† custa de convencer a parcela ignara da popula√ß√£o, que ser dependente das "benesses" do Estado, √© algo salutar. Infelizmente, no Brasil, essas cren√ßas s√≥ s√£o abandonadas quando a verdade avassaladora se imp√Ķe, por meio de crises terr√≠veis, que poderiam ter sido evitadas, se houvesse o uso da intelig√™ncia e da honestidade de prop√≥sitos. 

Parece incrível, em pleno século 21, estarmos ainda discutindo se precisamos ou não mudar as regras do sistema trabalhista, enquanto somos diariamente atingidos pelo surgimento de tecnologias disruptivas (aquelas que produzem rupturas nos processos tecnológicos), que estão destruindo empregos em velocidade espantosa. Finge-se que o mundo é estático, como a fábula da avestruz.

Em Novembro de 2016, foi publicado um estudo pela Universidade das Na√ß√Ķes Unidas e Instituto Smithsonian, denominado Projeto Millennium, que teve o prop√≥sito de fazer a conex√£o de institui√ß√Ķes e indiv√≠duos para analisar perspectivas e definir estrat√©gias capazes de fazer frente aos desafios globais de longo prazo, influenciando transforma√ß√Ķes sociais, pol√≠ticas, econ√īmicas ou cient√≠ficas. Pesquisadores, professores e pensadores, de 60 pa√≠ses, projetaram para at√© 2050, o que dever√° ocorrer no mundo do emprego e da tecnologia, onde n√£o haver√° trabalho para todos.

Projetaram 3 cen√°rios: 

Cen√°rio 1 ‚Äď Tudo fica como est√°. A tend√™ncia √© de mais desemprego onde n√£o houver planejamento e estrat√©gias p√ļblicas de longo prazo, sobretudo em rela√ß√£o √† ado√ß√£o de novas tecnologias. Existe a premissa de que o incremento da biologia sint√©tica estimule o crescimento econ√īmico, mas tamb√©m seja fonte de desastres biol√≥gicos e insumo para o terrorismo. As economias colaborativa e compartilhada ser√£o fontes de riqueza. As novas tecnologias ajudam a aumentar a produtividade humana, sem contudo, substituir a totalidade dos empregos. Projetam para 2050 que 66% da popula√ß√£o estar√° empregada ou empreendendo, e o restante se dividir√° entre o desemprego e a informalidade. 

Cen√°rio 2 ‚Äď Ocorr√™ncia de turbul√™ncia pol√≠tica e econ√īmica. Os l√≠deres pol√≠ticos estiveram t√£o envolvidos em conflitos de curto prazo que n√£o puderam prever  a rapidez do avan√ßo da converg√™ncia tecnol√≥gica, que permite fabricar e imprimir o que se consome (tecnologias 3D e 4D) tornando os neg√≥cios e os sistemas tribut√°rios obsoletos. A concentra√ß√£o de riqueza continua, o retorno sobre o investimento em capital e tecnologia permanece maior do que o do trabalho. O enfraquecimento das economias n√£o suporta o envelhecimento das sociedades e o desemprego em massa da juventude, conduzindo o mundo a uma realidade de caos e convuls√£o social. O impacto dos rob√īs que trabalham 365 dias por ano, sem sal√°rio, nem benef√≠cio ou aposentadoria, √© mais alto do que o previsto; o resultado √© que em 2050 quase 4 bilh√Ķes de pessoas estar√£o desempregadas ou na economia informal, com pouca esperan√ßa de um futuro melhor.

Cen√°rio 3 ‚Äď O auto-emprego. Embora sem certeza se as novas tecnologias iriam substituir mais empregos do que criar, muitos l√≠deres antecipam-se a estudar estrat√©gias financeiras visando garantir renda b√°sica universal com o intuito de eliminar a car√™ncia material extrema, reduzir a desigualdade e ajudar na transi√ß√£o para novos padr√Ķes de economia. Sem precisar trabalhar para ganhar a vida, as pessoas est√£o livres para explorar seus interesses, dedicando-se a causas para construir u futuro melhor. Com o aumento do desemprego por causa da automa√ß√£o muitos voltam para √°reas rurais, ainda que conectados √† rede mundial. A descentraliza√ß√£o manifesta-se de v√°rias maneiras. Na Economia da auto-realiza√ß√£o, grande parte do crescimento criativo est√° na "n√£o-propriedade", com pouca ou nenhuma restri√ß√£o ao uso compartilhado e livre. O poder individual relativiza o do governo e das corpora√ß√Ķes. Cada vez mais pessoas convertem-se em investidores. Da for√ßa de trabalho, metade trabalha por conta pr√≥pria, o restante divide-se em propor√ß√Ķes iguais, entre a informalidade, o emprego formal e a transi√ß√£o para o empreendedorismo.

Em adi√ß√£o, o site americano "Will Robots Take My Job ?" (Rob√īs v√£o tirar o meu emprego?) publicou um artigo em 2013, de autoria de Carl Frey e Michael Osborne, no qual analisaram mais de 700 profiss√Ķes e calcularam a possibilidade de que, com o avan√ßo da tecnologia, elas sejam automatizadas nos pr√≥ximos anos. Utilizando apenas alguns exemplos, conclu√≠ram que os taxistas e motoristas particulares t√™m 89% de chance de serem substitu√≠dos; os caixas de supermercado, 97%; operadores de telemarketing, relojoeiros e costureiras manuais, 99%. Na outra extremidade, a profiss√£o de terapeuta recreativo, que executa atividades com pacientes de hospitais e casas de repouso, tem apenas 0,28% de probabilidade de ser automatizada.

Portanto, √© de vital import√Ęncia que atente-se para esse fen√īmeno implac√°vel da substitui√ß√£o de pessoas por m√°quinas, j√° que o mesmo atingir√° cada vez mais fortemente os pa√≠ses subdesenvolvidos como o Brasil, usualmente pouco vigilantes √†s transforma√ß√Ķes do mundo moderno.


*Fernando Pinho é economista, palestrante e consultor financeiro da Prospering Consultoria.

http://blog.fpinho.com.br/

Sobre Fernando Pinho

Fernando Pinho, 60 anos, natural de Bauru (SP), √© economista e consultor financeiro com viv√™ncia em importantes mercados nacionais e internacionais. Em suas an√°lises relaciona estat√≠sticas, matem√°tica financeira, ci√™ncia pol√≠tica e hist√≥ria econ√īmica para tratar de realidades complexas que impactam no cen√°rio econ√īmico do Brasil e do mundo. Fernando gosta de trabalhar em cen√°rios econ√īmicos amplos, mostrando causas e consequ√™ncias de como a economia afeta diretamente a vida de todos, considerando diversos assuntos e vari√°veis, como Geopol√≠tica, Pol√≠tica Partid√°ria, Pol√≠tica Monet√°ria, Pol√≠tica Cambial, Ideologias Econ√īmicas, Psicologia do Consumidor, fen√īmenos e aspectos da globaliza√ß√£o. Formado em Economia pela ITE ‚Äď Institui√ß√£o Toledo de Ensino (Bauru-SP), Fernando √© P√≥s-graduado em Psicologia Econ√īmica pela PUC SP e Mestre em Finan√ßas pela Universidade Mackenzie.


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