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EDITORIAL

Em um contexto no qual os atuais pré-candidatos demonstram mais preocupação com os poderosos do agronegócio e os conservadores religiosos, o possível palanque erguido por Kátia para o presidente Lula no Tocantins pode significar uma virada de chave histórica na política local

Ilustração: Bruna Estrela.

Quando todos correm de Lula, Kátia surge como única alternativa.

Em uma das eleições mais emblemáticas já vividas pelo Tocantins, uma coisa é certa: todos os candidatos até aqui declarados tentam se afastar o máximo possível do presidente Lula. Até mesmo no palanque montado pelo senador Irajá Abreu para o vice-governador Laurez Moreira, a figura do presidente Lula é ignorada.

A pré-candidata e senadora Professora Dorinha (UB), mesmo fazendo parte de uma base que dialoga com o governo federal no Senado, prefere se esquivar quando o assunto envolve o presidente, candidato declarado à reeleição. O motivo óbvio é um palanque composto por partidos defensores do bolsonarismo. Em meio a esse imbróglio, temos uma professora impedida de ler para os tocantinenses a cartilha que muitas vezes segue em Brasília.

Já o palanque do pré-candidato Vicentinho Júnior (PSDB) é certeiro no possível apoio à Presidência da República. Seguidor do bolsonarismo, o pré-candidato faz questão de exibir a bandeira do Brasil como manto em todos os encontros realizados até então. Mesmo evitando falar o nome do presidente Lula, faz questão de pontuar seu perfil conservador e o alinhamento com pautas defendidas pelos partidos de centro e centro-direita.

Nas três realidades descritas, entre elas a do vice-governador Laurez Moreira (PSD), partidário e forte aliado do senador Irajá Abreu, defensor do governo Lula em Brasília, todas têm mostrado a mesma característica: o distanciamento da pré-candidatura à reeleição do presidente Lula. Um cenário que deixa o petista sem palanque no Tocantins.

Nesse contexto, em que Lula é tratado como “leproso” pelos palanques descritos acima, resta ao petista e a todos os partidos de esquerda e centro-esquerda uma solução prática e salomônica: a candidatura ao governo da ex-senadora e ex-ministra do governo Dilma, Kátia Regina Abreu. Mesmo sofrendo resistência por parte da ala conservadora do partido e abonada no PT com o aval do presidente Lula, Kátia Abreu é a única saída viável para a esquerda tocantinense.

Em um contexto de uma direita fragmentada em três blocos, em um estado que sempre deu vitória ao presidente Lula, a candidatura da ex-senadora Kátia Abreu (PT) reúne todas as condições para uma possível vitória ou, na pior das hipóteses, para embaralhar todo o jogo jogado até o momento pela Professora Dorinha, Vicentinho Júnior e Laurez Moreira.

Os palanques descritos acima subestimam o poder do pré-candidato à reeleição que, na batuta de seu governo, criou um universo com mais de 142 mil famílias tocantinenses beneficiadas pelo Bolsa Família e por outros programas, como o Auxílio Gás, Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida e tantos outros benefícios que levariam linhas e mais linhas deste editorial para serem enumerados.

O que faz Kátia Abreu competitiva nada mais é do que seu histórico na vida pública. Aluna do político mais astuto e influente que o Tocantins já teve, Siqueira Campos, Kátia Abreu foi a única discípula que conseguiu exercer poder mesmo estando fora dele.

Sem mandato há quase oito anos, ela consegue manter em Brasília o mesmo prestígio que tinha quando era senadora.

Essa habilidade fez com que, historicamente, apenas Siqueira Campos e Kátia Abreu conseguissem exercer poder sem mandato no Tocantins. É essa peculiaridade da ex-senadora Kátia Abreu, herança política do velho Siqueira, de quem foi discípula, que a torna competitiva no cenário atual que definirá os destinos do Tocantins.

Exemplo maior que a Kátia pode ter para o encorajamento de uma candidatura ao governo do Tocantins foi a recente campanha vitoriosa do prefeito Eduardo Siqueira Campos, que era tida como totalmente louca e improvável e, de repente, ganhou as ruas e as urnas.

Em uma equação simples, em que três candidatos disputam o mesmo cargo erguendo a mesma bandeira ideológica, fracionando seu eleitorado em três ou quatro partes, resta para o candidato que está na outra ponta metade ou mais da metade de quem não comunga suas ideias.

É indiscutível que, em um eventual palanque armado para o presidente Lula no Tocantins, os seus aliados sairão fortalecidos, tendo em vista que Lula e seus candidatos sempre saíram vitoriosos em todas as eleições. O que faria esta eleição ser diferente, tendo em vista o grande desgaste dos partidos de direita envolvidos em escândalos e mais escândalos no cenário nacional?

Em um contexto no qual os atuais pré-candidatos demonstram mais preocupação com os poderosos do agronegócio e os conservadores religiosos, o possível palanque erguido por Kátia para o presidente Lula no Tocantins pode significar uma virada de chave histórica na política local.

Para Kátia Abreu, que não tem mandato algum para perder, seria o início de uma possível reconstrução de sua vida pública, uma vez que até agora ela não conseguiu fazer com que seu principal sucessor, o senador Irajá Abreu, alcançasse o mínimo do prestígio que ela conquistou durante sua trajetória política.

Em relação aos outros candidatos, é certo afirmar que o ex-governador Laurez Moreira ainda tenta reconstruir a imagem deixada por sua curta passagem como mandatário no Palácio Araguaia. Ao invés de mostrar capacidade de governar, perdeu os preciosos 90 dias para atacar a gestão do governador Wanderlei Barbosa. Realidade que ainda perdura, mesmo o governador não sendo candidato à reeleição.

A Professora Dorinha tem circulado por todo o estado em busca de apoio junto às lideranças políticas e religiosas. Conta com o apoio do governador Wanderlei Barbosa, que hoje tem mais de 80% de aprovação. Resta saber se todo esse percentual será convertido em votos. Do contrário, o palanque pode ficar tão pesado que fará lembrar os últimos anos da extinta União do Tocantins.

Já a campanha do pré-candidato Vicentinho Júnior chegou feito um tsunami. Mostrou crescimento visível nas ruas e, nas últimas semanas, parece ter dado uma freada. Com discurso conservador e demonstrando muito respeito às ideias bolsonaristas e aos senhores do agronegócio, a pré-campanha dá sinais de que virão muitas motociatas e apoiadores vestidos com a bandeira do Brasil.

Colar a imagem de sua campanha ao bolsonarismo pode resultar no desfecho final e trágico da campanha da deputada Janad Valcari em Palmas.

Parafraseando Geraldo Vandré, “para não dizer que não falei das flores”, faço aqui um aparte para lembrar do pré-candidato e ex-senador Ataídes Oliveira (NOVO). Mesmo sem palanque montado, ele já se declarou candidatíssimo nas redes sociais. Com discurso conservador, em defesa da família e contra a corrupção, o empresário tem levado às redes sociais uma retórica ácida e agressiva.

Em relação à disputa ao Senado, farei uma análise à parte, tendo em vista que, no Tocantins, de acordo com comentários de bastidores, “uma vaga já tem dono”. Nesse caso, a segunda vaga, que ainda não tem dono, será uma briga homérica, nunca antes vista nos rincões tocantinenses. O risco, nesse caso, é o povo esquecer de votar no candidato apontado como dono da tal vaga.

Muito se fala em apoio de vereadores, prefeitos, líderes comunitários e líderes religiosos, mas parece que esqueceram do povo. A ruína da poderosa União do Tocantins, que chegou a eleger “postes”, é o maior exemplo para todos os seus ex-integrantes de que palanque cheio não é sinônimo de voto e satisfação popular.

Enquanto isso, no “país” de Siqueira Campos, os órfãos da extinta União do Tocantins (UT), divergem para sentar no trono do Palácio que ele construiu. Na disputa, que promete ser histórica, estarão em palanques opostos os Vicentes da histórica Porto Nacional, a mãe do Fundeb, o vice-governador, empresário e, possivelmente, os Abreu na batuta de sua matriarca.

Até outubro tem muito capim para virar ouro no Tocantins, que gira, gira e faz girar… O Girassol…

Wibergson Estrela Gomes – editor – O Girassol – 26 anos.

 

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