Em uma das eleições mais emblemáticas da história política do Tocantins, o próximo domingo, 25 de outubro, poderá apresentar, nas urnas, uma lição que os governantes nem sempre conseguem compreender: o poder não emana do Palácio Araguaia, tampouco do Paço Municipal ou das casas legislativas, mas sim da soberania popular.
A reta final da disputa entre Vicentinho Júnior e a Professora Dorinha trouxe à cena política o chamado efeito revoada, ou manada, marcado pela movimentação de partidos e lideranças em direção à candidatura de Vicentinho Júnior.
Um fenômeno que, na minha avaliação, reflete um sentimento de mudança perceptível nas ruas e contraria as orientações políticas do governador Wanderlei Barbosa, do prefeito Eduardo Siqueira Campos e do senador Eduardo Gomes, os três principais apoiadores da Professora Dorinha.
O cenário faz lembrar o antigo ditado da poderosa União do Tocantins (UT), segundo o qual “o velho Siqueira elegeria até um poste”. Uma expressão que simbolizava a força política de Siqueira Campos nas primeiras décadas do recém-criado Tocantins, mas que a própria história tratou de relativizar.
O conglomerado de partidos e lideranças reunido em torno da Professora Dorinha parece reeditar a antiga UT, agora sob a denominação União pelo Tocantins. Um remake político que reúne governantes, parlamentares, prefeitos e importantes estruturas de poder em torno de uma candidatura.
Mas a história tocantinense já mostrou que grandes alianças não são sinônimo de vitória. Um exemplo recente foi a derrota eleitoral de Janad Valcari, que contava com o apoio do governo e de importantes lideranças políticas, mas acabou perdendo a disputa para Eduardo Siqueira Campos, que apostou em uma campanha marcada pelo sentimentalismo e pelo contato corpo a corpo com a população.
No passado, a derrota de Nilmar Ruiz, que concorria à reeleição, para Raul Filho, na disputa pela Prefeitura de Palmas, e a de Siqueira Campos para Marcelo Miranda, na corrida pelo Governo, expuseram os limites da força política da antiga União do Tocantins.
Uma das imagens mais simbólicas daquele período foi o caixão com o símbolo da UT, levado em cortejo pela Avenida Theotônio Segurado durante a comemoração da vitória de Raul Filho. Naquela noite, o maior conglomerado político do Estado viu sua força esbarrar na vontade popular.
A cena ficou marcada como símbolo de que palanques cheios, grandes estruturas e lideranças poderosas nem sempre conseguem tocar o coração do povo.
O mesmo povo que, em anos anteriores, enterrou a UT trouxe de volta ao Palácio Araguaia seu maior líder, Siqueira Campos, e, recentemente, colocou no comando da capital seu herdeiro político, Eduardo Siqueira Campos.
Em relação à extinta União do Tocantins, décadas depois, a política tocantinense parece assistir a um novo capítulo dessa história.
Em meio a pesquisas eleitorais, mudanças de alianças e declarações de apoio, a revoada de lideranças em direção a Vicentinho Júnior tornou-se um dos movimentos políticos mais marcantes desta reta final.
Na minha percepção, os ventos sopram em direção à histórica Porto Nacional, terra dos Vicentes, diga-se, do patriarca, ex-senador Vicentinho Alves. A movimentação nas ruas e a adesão de lideranças alimentam a expectativa de que sua candidatura possa contrariar toda a força e a estrutura política reunidas em torno da Professora Dorinha.
Entretanto, somente as urnas poderão confirmar se esse sentimento será convertido em votos suficientes para definir a eleição e estabelecer uma nova era na política tocantinense.
Em um misto de presente e passado, no qual tantos personagens políticos já se encontraram e se desencontraram, permanece uma lição que considero fundamental: a política não se sustenta apenas no poder das máquinas administrativas ou na quantidade de partidos.
Na minha avaliação, Vicentinho Júnior tem buscado estabelecer uma conexão emocional com o eleitorado, enquanto a Professora Dorinha aposta em sua trajetória pública e no prestígio de importantes lideranças, a exemplo do senador reeleito Eduardo Gomes.
A caminhada dos dois candidatos é distinta. A Professora Dorinha aposta no capital político do governador Wanderlei Barbosa, com quem venceu a última eleição para o Senado, e do prefeito Eduardo Siqueira Campos. Já o candidato Vicentinho Júnior aposta no sentimentalismo poético da fala e no contato corpo a corpo com o eleitorado.
No próximo domingo, saberemos se esse novo capítulo do remake da UT será suficiente para garantir a sobrevivência política dessa aliança.
Se a revoada levará Vicentinho Júnior ao Palácio Araguaia ou se a estrutura política reunida em torno da Professora Dorinha prevalecerá, a resposta virá das urnas.
Que a história da antiga União do Tocantins permaneça como advertência aos que acreditam que o poder político pode determinar antecipadamente a vontade popular.
No Tocantins, país de Siqueira Campos, onde o sol faz o capim virar ouro, o voto deixou de ter cabresto para se afirmar como símbolo da soberania popular.
Porque os palácios pertencem ao Estado, mas o poder pertence ao povo
Gomes – Editor de O Girassol – Desde 2000.