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Dizem analistas

Para Renato Ungaretti, especialista residente sênior no Observa China, a deterioração da imagem dos Estados Unidos no Oriente Médio contribui para os esforços empregados pela China nos últimos anos

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Por Melissa Rocha – Sputnik Brasil

A crise que eclodiu no Oriente Médio após a ofensiva de Israel contra o Hamas, lançada em 7 de outubro, e o envolvimento de outros atores no conflito — como o grupo libanês Hezbollah e as milícias houthis, que promovem ataques a navios no mar Vermelho em apoio à causa palestina — contribuíram para acorrosão da imagem dos Estados Unidosna região, por conta do apoio incondicional de Washington a Tel Aviv, apesar das críticas da comunidade internacional relativas à atuação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.

Em contraponto,analistas apontam que o cenário atual favorece os planos da China de ampliar sua presença no Oriente Médioe fortalecer seu soft power na região. ÀSputnik Brasil, especialistas explicam como a ampliação da presença da China no Oriente Médio beneficia os projetos da iniciativa daNova Rota da Seda, bem como contribui para fortalecer a China como voz ativa do Sul Global na região.

Doutor em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), certificado em geopolítica pelo Instituto de Geopolítica de Genebra, especialista do think tank Observa China e secretário do Comitê de Estudos Asiáticos e do Pacífico da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA, na sigla em inglês), Alexandre Coelho aponta que“os interesses da China no Oriente Médio são multifacetados e estratégicos”.

“Em um contexto de tensões comerciais e diplomáticas crescentes com os Estados Unidos e a Europa, a China busca intensificar suas relações com o Oriente Médio e a América Latina, sobretudo a América do Sul. Essa diversificação reflete uma estratégia de Pequim para reduzir vulnerabilidades e ampliar sua influência global”, afirma.

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Coelho aponta que o Oriente Médio oferece à China segurança energética, focada no petróleo e gás natural, mas acrescenta que os interesses de Pequim“são complementados por ambições geopolíticas e econômicas mais amplas”.

“Os projetos de infraestrutura da Iniciativa Cinturão e Rota [BRI, como também é chamada a Nova Rota da Seda, na sigla em inglês] têm solidificado o engajamento chinês em infraestruturas críticas nos países do Golfo e no Irã, potencializando as relações comerciais e substituindo a União Europeia como principal parceira do Conselho de Cooperação do Golfo.”

Segundo o especialista, “a presença militar dos EUA no Oriente Médio é vista pela China como um risco potencial ao seu fornecimento energético, tornando a região um foco de vulnerabilidade”,o que explica a ampliação dos esforços de vigilância e diplomáticos de Pequim.

“Nesse cenário, a China está atenta aos estratégicos pontos de tráfego marítimo, como o estreito de Ormuz e o canal de Suez, que, embora sob vigilância dos EUA, são suscetíveis a bloqueios. No âmbito diplomático, a China promoveu o primeiro China-Arab States Summit e o China-GCC Summit, bem como o acordo de distensão/trégua entre a Arábia Saudita e o Irã, reforçando a busca por parcerias estratégicas e desenvolvimento econômico regional. Investimentos significativos em infraestrutura, como joint ventures no Terminal Gateway do mar Vermelho e projetos no Iraque e Irã, evidenciam a importância do Oriente Médio para a BRI marítima.”

Por meio dessas iniciativas, aponta Coelho,“a China não só fortalece sua segurança energética e sua posição geopolítica, mas também promove estabilidade regional, essencial para a manutenção e expansão de suas rotas comerciais e projetos de infraestrutura”.

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“Exceção a essa lógica, no entanto, tem sido o posicionamento da China diante dos recentes ataques houthis no mar Vermelho, que têm prejudicado o comércio mundial como um todo e particularmente os países ocidentais e a própria China. O que explicaria esse posicionamento? O posicionamento histórico da China sempre foi evitar conflitos ou envolvimentos militares, mesmo quando seus interesses podem estar em jogo. A China procura sempre trabalhar nos bastidores ou por meio da diplomacia e pressões políticas e econômicas, o que me parece estar fazendo junto ao Irã, que patrocina os houthis. As atuações militares da China estão, na maioria das vezes, nas missões de paz lideradas pela ONU [Organização das Nações Unidas].”

Para Renato Ungaretti, especialista residente sênior no Observa China, a deterioração da imagem dos Estados Unidos no Oriente Médio contribui para osesforços empregados pela China nos últimos anos para ascender “como uma potência responsável, um país em desenvolvimento com certas responsabilidades e como promotora de bens públicos globais”.

“A China reforça muito a agenda do desenvolvimento em vez do conflito, da promoção da agenda de cooperação em vez do conflito, da estabilidade ao invés da instabilidade. Então, de uma certa forma, uma imagem dos Estados Unidos muito atrelada a esses conflitos e à instabilidade da região pode acabar reforçando a imagem da China como um certo contraponto, como um ator que se mostra comprometido com o desenvolvimento, com o financiamento de infraestrutura, entre outras questões que são muito necessárias para os países da região.”

Ungaretti acrescenta que muitos países do Oriente Médio são alinhados à política externa da China de não intervenção em assuntos internos de outros países, bem como ao princípio da não discriminação. Segundo ele, isso abre margem para que a China se apresente como voz ativa do Sul Global na região,promotora do desenvolvimento.

“A China acaba colocando a agenda do desenvolvimento muito como uma prioridade, em detrimento de outras agendas mais universais que os países desenvolvidos geralmente perseguem. Então, acho que isso pode ser a consequência de um processo que já está em continuidade, um processo contínuo da China se colocando nessa posição de promotora do desenvolvimento no Sul Global, digamos assim.”

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