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Opinião

Com o brutal impacto da batida, 12 vidas foram ceifadas, ao passo que apenas dois sobreviveram.

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• Por Goianyr Barbosa

Era noite, tempo nublado, sem luar, sem estrelas, o sol já havia se recolhido no hemisfério ocidental da Terra por cerca de 2h, apenas os faróis dos automóveis em alta ou baixa claridade clareavam os dois sentidos da TO-280, trecho entre Almas e Natividade. O diligente motorista Luciano Almeida retornava da capital tocantinense de mais uma de suas viagens, em que fora levar e trazer pacientes almenses para tratamento e observação médica. Estava por volta de 15 km para transpor o Rio do Peixe e mergulhar no município de Almas, do qual partira. Aliás, logo que atravessasse o célebre rio, estaria numa proximidade de 25 km para ultrapassar uma passagem importante, ou seja, o Morro da Bucânia que, a partir dali, já seria possível divisar ao longe a cidade de Almas, através de suas luzes cintilantes e os pontos luminosos fixados nas torres sobre a colina que divide a cidade. Todavia, a viagem que transcorria em calmaria fora interrompida abruptamente na fatídica noite da última quarta-feira, dia 25, segundo consta da perícia policial, por uma atitude inconsequente e criminosa do caminhoneiro Anderson Santos, o qual, na tentativa de ultrapassar um veículo em local indevido, invadiu a pista contrária, indo se chocar com a van, eliminando, portanto, quaisquer chances de defesa por parte de Luciano, uma vez que o local é formado por paredões sem escape. Com o brutal impacto da batida, 12 vidas foram ceifadas, ao passo que apenas dois sobreviveram.

Segundo relato de Gilvan Dias, que perdeu filha, neta e uma nora, logo que a filha Jordana Dias se encontrava passando pela cidade de Natividade deixou uma mensagem pelo WhatsApp, comunicando-lhe que a viagem seguia tranquila e ainda fez o seu último pedido: “Pai, chegaremos em breve, viagem mais que tranquila; preparem aquela jantinha deliciosa para nós”. Já o agricultor Joaquim Valadares, que fora acompanhado da sua esposa Antônia Crisóstomo, também mortos no acidente, realizaria o seu último procedimento terapêutico. Uma das filhas moradoras em Palmas ainda chegou a fazer um apelo para que ambos permanecessem por mais alguns dias na companhia dela. O convite foi em vão, geralmente pessoas que moram em fazendas não gostam de ausentar das suas localidades por muitos dias. Outro caso que emocionou a cidade foi a do aposentado João Batista, o Joca, morto com a filha Emilena Pinto. Era a primeira vez que foi a capital e, segundo relatos, ficara encantado por ter conhecido a capital mais nova do país. “Gente, como eu fiquei esse tempo todo sem conhecer essa cidade tão falada? Não quero ficar só nesta vinda”, declarou fascinado de felicidades, não sabendo ele que seria a primeira e última visita a Palmas. Há casos intrigantes, como o da jovem estudante de enfermagem Flávia Dias, que já estava de viagem agendada. Um dia antes passou a sentir muitas dores pelo corpo e cancelou a viagem.

A notícia chegou como um terremoto em alta escala

Logo que a infausta notícia chegou em primeira mão às pessoas, narrando uma tragédia nunca ocorrida antes, e jamais imaginada, ela se irradiou como ondas eletromagnéticas, isto é, rápida, causando pavor e arrancando prantos à medida que o comunicado chegava a cada lar, a cada pessoa. De pronto, o governador Wanderlei Barbosa, ao ser noticiado da fatalidade, mobilizou as áreas afins do seu governo para o apoio necessário às vítimas e seus parentes, bem como ao prefeito de Almas, Vagner Nepomuceno, o Vaguinho. Era madrugada, e a deputada Cláudia Lélis lutava com afinco para que uma força tarefa reforçasse o IML de Natividade para agilizar a liberação dos corpos. Concomitante, uma corrente de solidariedade humana gigantesca foi sendo formada não só na cidade de Almas, mas em torno das cidades vizinhas, onde prefeitos ofertavam solidariedade e ajuda material aos familiares vitimados. No dia seguinte à tragédia, 26, a imprensa nacional já dava destaque ao ocorrido nos seus principais telejornais. Era o fato mais comentado, o mais desolador e que comovia na medida que histórias eram narradas acerca dos personagens, cuja maioria era de pessoas simples, porém queridíssimas, nativas dali mesmo, do torrão almense. Até os considerados fortes, desabaram-se, como foi o caso do prefeito Vaguinho, que numa entrevista ao vivo à TV Anhanguera derramou lágrimas, quase tendo a entrevista interrompida pelo impacto emocional.

A chegada na manhã do dia 26 dos carros funerários, ambulâncias, carros do Corpo de Bombeiros, vindos do IML de Natividade, no traslado dos corpos, adentrando pelas vias da cidade de maneira lenta e silenciosa aterraram ainda mais as almas dos moradores da cidade. As badaladas do sino da Igreja de São Miguel, sendo frequentemente tocado, com suas pancadas agudas, intervaladas, comunicava a todos a transitoriedade da vida terrena. Nas homilias, padres vindos de outras paróquias ressaltavam a importância da vida, do zelo pelo próximo, e que um dia, inevitavelmente, a morte baterá à nossa porta. Nos cultos evangélicos, pastores traziam aos presentes a reflexão de que a existência terrena é efêmera, e que estar preparado para a partida é uma ordenança bíblica, pois a morte às vezes chega como um ladrão, sem aviso. Por sinal, era fácil observar a mudança no comportamento das pessoas, cabisbaixas, olhos marejados, à procura de uma explicação para essa que foi a pior tragédia coletiva já registrada no município e, consequentemente, no Estado, fato que levou o governador Wanderlei Barbosa a comparecer na cidade e visitar cada velório na noite do dia 26. Segundo Wanderlei, que estava visivelmente abalado, o quadro que presenciara era estarrecedor, nunca visto antes. “Fiz questão de vir pessoalmente trazer a minha solidariedade às famílias enlutadas, ao povo almense, dada a gravidade da situação. Estou chocado, sem chão, queria ter palavras que pudessem, por exemplo, aliviar a dor que está sangrando do coração deste povo”, manifestou.

Mudou-se a forma de morrer!

Nasci em Almas no germinar dos anos 60, e já muito cedo passei a compreender e observar o significado da morte, o trauma produzido por uma partida, visto que perdi tios e meu avô na fase infante da minha vida. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, não me recordo de ter presenciado na minha cidade alguma morte dupla, sempre um de cada vez e com intervalos elásticos. Contudo, se ocorrera, não fora de violência. Já a década de 80, com o crescimento urbano da cidade, a explosão garimpeira, o desenvolvimento regional crescente, as mortes em maior intensidade passaram a permear o nosso cotidiano. Entretanto, em nenhum momento se pensou em morte coletiva, com alto grau de letalidade, com rastros e lesões difíceis de serem cicatrizadas. Conclusão: o momento de luto pelo qual estamos atravessando mostrou o quanto o almense é solidário, humano, de alma pura, pois muitos deixaram os seus afazeres, interromperam muitos compromissos e foram chorar juntos com aqueles que perderam seus entes queridos. Que fique também um solene aviso, um sinal de alerta para tomarmos os devidos cuidados quando estivermos ao volante, cônscios de que há vidas nesse jogo pela sobrevivência. Por fim, aos familiares enlutados, aos almenses, órfãos dessa fatalidade, os nossos mais profundos sentimentos de pesar!

• Goianyr Barbosaé jornalista, radialista e consultor político

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Divulgação/Secom.

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