Por Amanda Romão Silingowschi
Alguns embates que se apresentam em nossas vidas vêm carregados e pré-constituídos de certezas irresolutas, verdades inabaláveis. Estou aqui para quebrar esses paradigmas. Vamos buscar uma mudança do senso comum, abrindo os horizontes para novas ideias e perspectivas sobre o câncer e os impactos, pois a grande maioria do que é asseverado quando se trata desta doença, em verdade, não passa de utopia, o fato é: tenho digladiado contra um carcinoma mamário descoberto no decorrer do ano de 2025.
Com este combate imposto pelas treliças da vida, em que não há tempo para se rebelar, questionar ou se abater, somente ENFRENTAR da melhor forma que a nossa mente, corpo e coração atingirem, neste contexto tenho ouvido algumas afirmativas no que tange à forma como o câncer modifica a pessoa, acarreta mudanças, enfim.. rs!
Nessa senda, algumas premissas aglutinadas ao diagnóstico, pareceram tinetas, “verbi gratia”: a sabedoria, espiritualidade, gratidão, o autocentramento, o desenvolvimento pessoal; entre tantos outros adjetivos e qualidades, afirmo a vocês que, apesar do que se prega, essas NÃO estão inclusas no pacote. Esforço-me em imaginar de onde surgiu essa quimera.
O CA se exprime de modo dolente, desafiador, inesperado, desconhecido, atemorizante… Este é o primeiro impacto! Ultrapassados o incerto, o novo, o temor, ocorre uma estabilização e escolha de como você irá encarar, como lidar. Você pode lutar em cada batalha que virá a seguir com desígnio de vencer essa guerra ou optar por não querer enfrentar todos estes duelos. E está tudo bem. A vida lhe pertence e a mais ninguém, assim como a decisão de guerrear ou não só compete a ti.
Eu elegi a via da peleja; contudo não recrimino, nem ao menos desestimo quem ingressou pela outra estrada. A decisão tem cunho individual, intransponível, singular e extremamente inata.
Galgados estes dois primeiros momentos que consistem em descobrir o diagnóstico e eleger sua estrada, passamos à fase do que as pessoas esperam de ti, você automaticamente ingressará numa metamorfose onde a saída do casulo, assim como as asas, não esperam nada menos do que: um ser humano introspectivo, “gratiluz”, com fala mansa e acolhedora, portador de uma sabedoria e discernimento inexprimível – uma borboleta ninja! HAHAHA…
Assisto a essas investidas e anseios com pescoço grosso em tanto segurar o riso, uma doença não tem condão catalisador para assegurar desenvolvimento pessoal, aprendizados e mudanças, gente escrota continuará sendo, creiam!
Necessário aclarar que crescimento, discernimento e aprendizados estão intrinsecamente ligados à sua capacidade individual em transformar o que lhe foi entregue em sabedoria proveniente de seu conhecimento empírico. Isso só ocorre com empenho árduo e diuturno.
Conjecturo que o fato de uma das reações da quimioterapia se apresentar como alopecia acabam por induzir as pessoas ao erro em atrelar a calvície aos Monges Tibetanos. Desta forma, todo “careca” é portador de uma sabedoria atinente! Kkkkkk
Sabedoria não vem com o câncer!
Por óbvio que a obrigatoriedade em manejar esta doença, que mais parece um palavrão, pode ocasionar mudanças significativas – jamais sem busca ou automaticamente – a valorização da vida propriamente fica pungente; as relações interpessoais se aprofundam, posto que a efemeridade que bateu à tua porta não deixa que o “”EU TE AMO”, “eu sinto sua falta” fique para amanhã.
O estalar de dedos da vida, em que o termo fugaz é muito mais palpável agora e possui significado ardente; o não deixar para amanhã; viver como se fosse o último dia — isso sim, imagino ser inerente ao câncer. Hoje, eu não irei conversar com você, olhar-te nos olhos e e deixar de declarar meu respeito, admiração, amor e até mesmo desprezo. A seletividade de quem você deseja ao teu lado também bate à porta, pois a vida… o que é a vida? Quanto tempo temos? Tenho tempo para conviver com quem não admiro, não amo e desgosto? A resposta, em uníssono, é NÃO!
Então chega mais e repete esses mantras comigo: Sabedoria não é proveniente do câncer!
A alopecia induzida por quimioterapia não me ALÇOU de pessoa comum a Monge Tibetano!
Não tenho tempo para café morno, conversa mole ou amor pela metade!
Por deslinde, asseguro a vocês, com poder de cátedra, que não sou um ser humano melhor após o diagnóstico, nem mais grata, nem mais paciente, muito menos sábia! Essas questões faziam parte da minha busca pretérita ao diagnóstico, com terapia e autoconhecimento.